

A ILHA PERDIDA
Maria Jos Dupr
Editora tica        28.a edio        SRIE VAGA-LUME

Coordenao da Srie: Fernando Paixo
Ilustraes: Edmundo Rodrigues
Capa: layout de Ary Almeida Normanha
Suplemento de Trabalho: Ivanilde Aparecida Frana e Luiz Carlos Travglia

Obra aprovada pela Equipe Tcnica do Livro e Material Didtico. Proc. n 1426/75, publicado no Dirio Oficial do Estado de So Paulo de 25-11-75.       ISBN 8508026811 
1992

Todos os direitos reservados pela Editora tica S.A.
r. Baro de Iguape, 110 - Tel: PABX 278-9322   Cx. Postal 8656   S.Paulo

Digitalizao: Sandra


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QUEM  O AUTOR
    Maria Jos Dupr era paulista. Nasceu em 1905, na Fazenda Bela Vista, municpio de Botucatu, prxima da divisa entre So Paulo e Paran.
    Aprendeu as primeiras letras com sua me e seu irmo, e em Botucatu estudou Msica e Pintura. Transferiu-se para So Paulo onde se formou professora pela Escola 
Normal Caetano de Campos. Iniciou-se na Literatura depois de se casar com o engenheiro Leandro Dupr.
    Seu primeiro romance - O Romance de Teresa Bernard - foi publicado em 1941. Mas o que a tornou famosa foi ramos Seis, editado em 1943, traduzido para o espanhol, 
francs e sueco e transformado em filme pelo cinema argentino.
    Entre os diversos prmios que conquistou, destacam-se: Prmio Raul Pompia, da Academia Brasileira de Letras e o Jabuti, da Cmara Brasileira do Livro.
    Faleceu a 35 de maio de 1984.


OBRAS DO AUTOR:
Romances:


Gina
Os Caminhos
A Casa do dio
Anglica
Dona Lola
ramos Seis
Luz e Sombra
Menina Isabel
O Romance de Teresa Bernard
Os Rodriguez
Vila Soledade


Livros infantis:


A Mina de Ouro
O Cachorrinho Samba na Bahia
A Ilha Perdida
Aventuras de Vera Lcia
Pingo e Pipoca
O Cachorrinho Samba
A Montanha Encantada
O Cachorrinho Samba na Floresta
O Cachorrinho Samba na Rssia
O Cachorrinho Samba entre os ndios
O Cachorrinho Samba na Fazenda




A ILHA PERDIDA

        Na fazenda do padrinho, perto de Taubat, onde Vera e Lcia gostavam de passar as frias, corre o rio Paraba. Rio imenso, silencioso e de guas barrentas. 
Ao atravessar a fazenda ele fazia uma grande curva para a direita e desaparecia atrs da mata. Mas, subindo-se ao morro mais alto da fazenda, tornava-se a avist-lo 
a uns dois quilmetros de distncia e nesse lugar, bem no meio do rio, via-se uma ilha que na fazenda chamavam de "Ilha Perdida". Solitria e verdejante parecia 
mesmo perdida entre as guas volumosas.
        Quico e Oscar os dois filhos do padrinho, ficavam horas inteiras sentados no alto do morro e conversando a respeito da ilha. Quem viveria l? Seria habitada? 
Teria algum bicho escondido na mata? Assim  distncia, parecia cheia de mistrios, sob as copas altssimas das rvores; e as rvores eram to juntas umas das outras, 
que davam a impresso de que no se poderia caminhar entre elas.  Oscar suspirava e dizia:
        - Se algum dia eu puder ver a ilha de perto, vou mesmo.
        Quico perguntava.
        - No tem medo? E se tiver alguma ona morando l?
        - Ona? No pode ter. Como  que ona vai parar l no meio do rio?
        - Nadando.   Ouvi dizer que ona nada muito bem.
        Oscar respondia,  pensativo:
        - Pode ser. Todos os bichos sabem nadar, s a gente precisa aprender; mas eu queria ver o que h na ilha. Falam tanta coisa...
        E ficavam olhando a ilha perdida. Se falavam com o pai, este prometia:
        - Quando forem mais velhos, faremos uma excurso  ilha.   Arranjaremos canoas apropriadas e iremos at l.
        Os dois meninos chegavam muitas vezes a sonhar com a ilha.
        Por ocasio de umas frias, justamente em fins de novembro, chegaram  fazenda Henrique e Eduardo, os dois primos mais velhos de Oscar e Quico.         Eram 
dois meninos de doze e quatorze anos, fortes e valentes. Montavam muito bem e sabiam nadar. Logo nos primeiros dias, percorreram sozinhos grande parte da fazenda; 
subiram e desceram morros, andaram por toda parte e ao verem o riozinho, onde Vera e Lcia tinham ido pescar uma vez com padrinho, apelidaram-no de "filhote do  
Paraba".
        Madrinha avisava:
        - Vocs no devem andar to longe de casa; de repente no sabem mais voltar e perdem-se por a.
        Eles riam-se e diziam que no havia perigo; continuavam a dar grandes passeios, e quando ouviam o sino dar badaladas, tratavam de voltar depressa. No terrao 
da casa havia um grande sino que padrinho costumava tocar todas as manhs; dizia que era para acordar os dorminhocos, mas quando Henrique e Eduardo demoravam um 
pouco mais nas caminhadas, padrinho tocava trs badaladas, conforme haviam combinado, e eles j sabiam que deviam regressar.
Uma tarde os quatro meninos ficaram no alto do morro olhando a "ilha perdida".         Como seria bom se tivessem uma canoa e pudessem ir ver o que havia na ilha. 
Eduardo, de esprito mais prtico, foi logo dizendo:
        - Que pode haver l?     rvores,  cips,   ninhos de passarinhos...
        Henrique, com a mo no queixo, olhava pensativo em direo da ilha.   Depois disse:
        - Vou ver se arranjo uma canoa por a, nem que seja emprestada ou alugada. Impossvel que ningum tenha uma canoa; eu sei remar, aprendi em Santo Amaro com 
uns primos.
        Os olhos de Quico brilharam de contentamento:
        - Voc sabe mesmo remar?
        Oscar disse uma frase que esfriou o entusiasmo de todos:
        - Nem pensem nisso, papai no deixa. J pedi muitas vezes e ele no deixa.
        Continuaram a olhar o rio.   Henrique perguntou:
        - Por que chamam de Ilha Perdida? Quico explicou:
        - Ningum sabe direito. Decerto porque parece mesmo perdida no meio do rio.         Quando viemos para c, j a chamavam assim. O Bento disse uma vez que 
morava gente l, mas no acredito. Acho que  boato, mas os moradores daqui dizem isso.
        Os primos ficaram mais interessados:
        - Quem mora l? Ser possvel? Chame o Bento para perguntar.
        Bento era o filho da cozinheira Eufrosina. Quico e Oscar comearam a gritar com toda a fora:
        - Bento!   Oh!   Bento!  Vem c!
        Ouviram uma voz l embaixo do morro respondendo:
        - J vou!
        Bento estava recolhendo os bezerrinhos do pasto; quando acabou o servio, subiu o morro bem devagar, cansado, suarento e mastigando um capim. Encontrou os 
quatro meninos sentados no cho e conversando a respeito do rio.
Henrique perguntou:
        - Bento, voc sabe se mora gente naquela ilha? Bento olhou em direo da ilha e coou a testa:
        - H muito tempo ouvi dizer que morava l um homem ruim, mas nunca vi nada, no sei se  verdade.
        Eduardo levantou-se e chegou mais perto de Bento:
        - Voc nunca viu mesmo nada? Nem um sinal de que h gente l?
        Bento hesitou, olhou o cho, tirou o capinzinho da boca e falou:
        - Pra dizer a verdade, um dia eu vi uma coisa l... Os quatro entreolharam-se.   Quico pediu:
        - O que foi?   Conte, conte.
        - Vi uma fumacinha saindo do meio daquelas rvores mais altas l bem  direita, esto vendo? Daquele lugarzinho vi uma vez sair fumaa.
        - S uma vez?   Veja se lembra, Bento.
        - S uma vez, mas era uma fumaa comprida que ia subindo, subindo at s nuvens.
        Oscar perguntou:
        - E voc no teve vontade de ir ver o que era?
        - Eu ainda era pequeno, nem pensei nisso. Vocs nesse tempo ainda estavam em S. Paulo, no tinham vindo para c.
        Quico disse:
        - E por que no nos contou isso antes? Bento respondeu:
        - U! Nunca ningum perguntou nada. Agora perguntaram, respondi.
        Desse dia em diante, Henrique e Eduardo no falaram mais na ilha, mas no pensavam noutra coisa. Durante o dia, passeavam pelas margens do rio explorando 
todos os recantos. Alimentavam um nico desejo: seguir aquele grande rio e ver a ilha de perto. Quando Quico e Oscar convidavam os primos para irem at o riozinho, 
eles iam, mas no achavam graa;  no gostavam do "filhote do Paraba". Achavam insignificante aquele riozinho sapeca que dava mil voltas antes de ser engolido pelo 
grande rio. Um dia Henrique, que andara sozinho at mais abaixo da fazenda, voltou nervoso para casa e segredou ao ouvido de Eduardo:
        - Descobri uma canoa velha amarrada l embaixo na curva grande.   Parece abandonada.
        Eduardo que estava saboreando um pedao de goiabada com queijo, quase engasgou de emoo:
        - No diga!  Estar boa para navegar?
        - No examinei muito bem; corri primeiro para avisar voc.
        - Ento vamos ver.
        Saram correndo para o lado do rio; nem ouviram a voz da madrinha:
        - No demorem muito, parece que vem chuva. Pulando moitas,  desviando-se  dos   galhos dos arbustos, subindo e descendo barrancos, os dois meninos foram 
ver a canoa amarrada na margem do rio.  Eduardo foi dizendo pelo caminho:
        - No conte a ningum a histria da canoa; se Oscar e Quico souberem, vo contar ao padrinho e no se pode fazer mais nada.
        -  No conto nada, nem ao Bento. - Nem ao Bento.
        O corao de ambos batia, apressado. Iriam ver, enfim, a ilha verdejante do meio do rio? Aquela ilha to bonita com tantas rvores, tanta folhagem, tanta 
beleza?
        Devia estar cheia de papagaios, verde de periquitos, enfeitada de flores. Impossvel que ali vivesse algum homem ruim; homens ruins no vivem em lugares 
bonitos como aquele.
        Quando chegaram ao lado da canoa, ficaram extasiados, imaginando o passeio que dariam at  ilha. Eduardo observou:
        - Est bem velha, Henrique;  capaz de encher dgua.
        - Qual! replicou Henrique. Eu acho que est bem boa. A gente pode calafetar os lugares onde ela est estragada.
        Inclinaram-se e comearam a olhar o fundo da canoa. Henrique pulou para dentro dela e, equilibrando-se, comeou a rir:
        - Ih! Que bom! Agora, sim, daremos belos passeios. Eduardo era mais calmo:
        - Espera, Henrique. Temos que arranjar muita coisa antes: arrumar cola para tapar os buracos, levar comida para passar o dia inteiro...
        -  mesmo, nem me lembrava disso.
        - Precisamos de uma caixa de fsforo para acender fogo.
        - Isso eu peo pra Eufrosina; a comida tambm peo pra ela.
        - No v fazer as coisas de -maneira que eles descubram tudo...
        - No h perigo. Eduardo continuou:
        - Temos que levar uma lata com gua para beber.
        - gua?  Pois no h tanta gua no rio?
        - Mas precisamos de gua pura; essa gua do rio deve ser suja,  to escura. Temos que levar tambm faca ou canivete.
        - Levo meu canivete. E o principal  no contar nada l na fazenda; se desconfiarem de alguma coisa, no nos deixam ir.
        - Naturalmente no se conta nada, nem deixamos que eles desconfiem.
Meia hora depois, voltaram para casa, ainda excitados com a novidade. No dormiram bem durante a noite; Henrique acordou Eduardo duas vezes para perguntar se a canoa 
no teria dono.
        Tinha resolvido seguir para a ilha na tera-feira e estavam ainda  no domingo.    Precisavam preparar tudo no dia seguinte.
        Na segunda-feira de manh bem cedo, Henrique teve uma idia: tirar a canoa do lugar onde estava e escond-la mais longe; assim, se algum a procurasse, no 
a acharia mais Foram para l e com grande dificuldade tentaram pux-la para terra, mas no conseguiram; ento resolveram cortar muitos galhos de rvore e cobriram-na 
para que ningum a encontrasse. 
        Foram depois falar com Nh Quim, o homem que lidava com as vacas no estbulo. Ele estava limpando as unhas com a ponta do faco. Eduardo falou: 
        - Nh Quim, viemos pedir um favor ao senhor. 
        Ele enfiou o faco no cinto de couro:
        - Oue  que esto querendo? Henrique foi dizendo:
        - Uma corda boa, dessas com que o senhor amarra bezerro.        
        - Gentes, para que querem uma corda?         
        Eduardo piscou para Henrique e falou:
        - Queremos fazer um balano numa rvore do pomar.
        Nh  Quim observou:
        - S falando com o patro; no posso dar corda assim sem mais nem menos. 
        Eduardo pediu:
        - Ora, Nh Quim, faa esse favor. No precisa ser corda muito nova, uma velha mesmo serve; a gente emenda os pedaos ruins.
        Pacientemente, Nh Quim tornou a tirar o faco do cinto, picou fumo bem miudinho para um cigarro de palha e enrolou-o enquanto ouvia as splicas dos dois 
meninos.   Depois disse:
        - Se no importam que a corda seja velha,  levem essa que est a na cerca.   Pra alguma coisa ela serve. 
        - Muito obrigado, Nh Quim.   Muito obrigado.
        A corda estava arranjada. Durante a noite, haviam lembrado que, para tapar os buracos da canoa, era preciso estopa e piche. Muitas vezes tinham visto a lata 
de piche encostada num canto da casa; servia para passar no terreiro onde espalhavam o caf. Mas onde arranjar um pedao de estopa? Foram  cozinha. Eufrosina estava 
preparando o almoo; Henrique falou primeiro:
        - Eufrosina, voc tem a um pedao de estopa velha?  para enrolar uma avenca muito bonita que encontramos na beira do rio.
        Eufrosina voltou-se, despejou na palma da mo um pouco do caldo que estava mexendo e provou estalando a lngua:
        - Para embrulhar avenca no se precisa estopa. Espere a que dou um pedao de pano velho.
        Eduardo olhou para Henrique; Eufrosina tornou a provar o caldo e a estalar a lngua.  Eduardo falou, resoluto:
        - Queremos estopa mesmo; se no, no serve. Ser que voc no arranja?  De algum saco velho?
        Ela perguntou:
        - No ser para alguma reinao?   Vejam l.
        - Que idia, Eufrosina!
        - S depois do almoo, agora estou ocupada.
        - Mas onde esto os sacos velhos?   Diga s.
        - Vo ver na despensa; agora estou ocupada. Que meninos terrveis!
        Os dois correram para a despensa e tiraram um grande pedao de estopa. Levaram para a beira do rio e esconderam-no l . S depois do almoo foram tapar os 
buracos da canoa. Calafetaram tudo muito bem e passaram piche por cima. Havia dois remos, mas um estava quebrado; Henrique emendou-o como pde. Passaram a tarde 
toda nesse servio e depois de terem coberto a canoa com galhos de rvore, voltaram para casa, entusiasmados com o trabalho que julgavam feito com tanta perfeio.
        Durante o jantar, pediram licena aos padrinhos para no dia seguinte visitarem o fazendeiro vizinho; era um velho que morava a alguns quilmetros de distncia. 
Costumavam ir l de quando em quando. Padrinho perguntou se queriam ir a cavalo; Eduardo corou e respondeu que iriam mesmo a p, queriam fazer uma excurso; s pediam 
alguns ovos cozidos para comerem no caminho. Madrinha deu ordem  Eufrosina para, no dia seguinte bem cedo, preparar um leve almoo para os meninos. Quico e Oscar 
pediram para ir tambm, mas madrinha disse que no; era muito longe, iriam a cavalo, num outro dia. Quando se recolheram ao quarto, Eduardo estava sentindo remorso 
por enganar os padrinhos; falou a Henrique:
        - Quem sabe  melhor contar tudo ao padrinho; estamos pregando tantas mentiras. Eles podem ficar aflitos quando souberem a verdade...
        Henrique riu-se:
        - Ser que voc est com medo? Sairemos bem cedo e voltaremos  tarde; eles nem sabero de nada. Contaremos depois que voltarmos;  questo de algumas horas 
apenas. Se est com medo, no v; sei remar muito bem, vou sozinho.
        Eduardo no respondeu e tratou de dormir; mas nenhum dos dois dormiu naquela noite; levantaram de madrugada e foram  cozinha. L estava Eufrosina preparando 
o almoo para eles levarem: lingia frita, ovos cozidos, po, queijo e laranjada. Eufrosina fez um grande pacote e deu-lhes tambm uma garrafa de gua. Despediram-se 
da boa preta e desceram o morro em direo ao rio.
        L estava a canoa preparada na vspera, bem calafetada, a corda embrulhada num canto. Colocaram o almoo no fundo e Henrique preparou-se para conduzi-la 
rio abaixo. Olharam o Paraba; estava calmo e as guas espumavam nas margens.  Eduardo observou:
        - O rio parece que cresceu, Henrique. Hoje est maior que ontem.
        Preocupado em empurrar a canoa para longe da margem, Henrique respondeu:
        - Decerto  por causa das chuvas; tem chovido muito nestes ltimos dias. Mas ns voltaremos cedo, no h perigo.
        Eduardo teve uma ligeira hesitao:
        - No ser ruim remar assim? Parece que as guas ficam com mais fora.
        - J disse que se voc est com medo, fique. Eu vou.
        E com o esforo que fez ao empurrar a canoa, Henrique caiu dentro da gua molhando-se todo. No deu a perceber que ficara aborrecido; pulou para cima da 
canoa e segurou os dois remos. Eduardo, sentado no banco que havia no meio, segurou-se fortemente nas bordas da canoa e olhou para Henrique, cheio de admirao. 
Com toda calma, Henrique havia depositado o remo quebrado no fundo e com o outro impelia a canoa para longe da margem. Ela comeou a deslizar rio abaixo e Eduardo 
sentiu o corao dar um salto dentro do peito. Pensou coisas horrveis nesse momento: "E se Henrique perdesse aquele remo? E se no soubessem voltar? E se o rio 
enchesse mais?"
        Estava muito arrependido e teve vontade de gritar: "Henrique, vamos voltar, eu no quero ir". Mas no teve coragem. Ficou quietinho, equilibrando-se com 
as duas mos e olhando o rio que corria, majestoso e tranqilo. Henrique sabia mesmo remar; fez a canoa deslizar sempre ao lado da margem, de modo que quase podiam 
segurar os galhos das rvores que pendiam sobre a gua. Eduardo comeou a achar bonito e Henrique disse:
        - Devem ser seis horas agora; o sol est comeando a esquentar.





E se Henrique perdesse aquele remo?  

 E se no soubessem voltar?  

 E se o rio enchesse mais?







        Nesse momento ouviram o sino da fazenda; era padrinho que estava tocando como fazia todas as manhs. Eduardo perguntou:
        - A ilha estar muito longe?   Daqui no vejo nada. 
        Henrique respondeu:
        - Nem comeamos a navegar e voc quer ver a ilha? Est longe ainda.
        A canoa descia vagarosamente; de vez em quando Henrique remava um pouco, conservando-a sempre na mesma direo. Viram lindos pssaros nas margens; outros 
passavam gritando sobre as cabeas dos dois. O dia prometia ser esplndido. Henrique tirou cuidadosamente o palet para secar, pois sentia toda a roupa molhada grudada 
no corpo; a canoa comeou a balanar de um lado para outro e Eduardo ficou assustado, mas no disse nada. 
        Henrique estendeu o palet sobre os joelhos e tornou a segurar o remo. A canoa foi indo... foi indo... O sol batia em cheio no rio e as guas pareciam douradas 
e prateadas; Eduardo achou bonito e deixou pender a mo na gua, depois olhou o fundo da canoa para ver se no entrava gua; o servio havia sido perfeito, o barco 
estava bem calafetado. Satisfeito, olhou a outra margem; no havia nem sinal de gente, nem de casas para lado algum. Era s vegetao e gua. De vez em quando, algum 
pssaro passava l no alto, sobre suas cabeas. Procurou ver a casa da fazenda; tudo havia ficado para trs. No havia nem sombra de habitao e a ilha devia estar 
longe ainda. S o rio de guas barrentas e a canoa descendo devagar...
        Henrique comeou a assobiar, despreocupado; para mostrar que tambm no tinha medo, Eduardo assobiou acompanhando Henrique; depois tomou um pouco da gua 
da garrafa dizendo que estava com sede. Apesar da fome que sentiam, resolveram esperar e almoar na ilha, nem sequer abriram o pacote do almoo. A canoa foi descendo 
o rio, seguindo o curso das guas. Viram rvores enormes, flores roxas e vermelhas sobressaindo no verde da folhagem; olhavam sempre para uma e outra margem  procura 
de gente ou casas, mas s viam gua e rvores. 
        Depois de algumas horas, avistaram a ilha.
         Eduardo foi o primeiro a divis-la e deu um grito de satisfao: 
        - Henrique, veja!  a ilha! 
        Ficou de p na canoa, mas quase caiu e quase fez a canoa virar; sentou-se assustado. Henrique abriu a boca com admirao. 
        L estava ela, toda verde e bonita, bem no meio do grande rio. rvores frondosas dominavam-na Foram se aproximando cada vez mais, mudos de espanto e alegria. 


Depois de algumas horas, avistaram a ilha.

 Eduardo ao avist-la deu um grito de satisfao.













        Com o remo entre as mos, Henrique empurrava a canoa em direo  ilha. A canoa parecia querer descer o rio abaixo porque as guas tinham muita impetuosidade; 
afinal Henrique conseguiu faz-la aproximar-se da terra. Com um suspiro de satisfao, os dois meninos pularam para fora da canoa, afundando os ps na lama das margens.
NA ILHA

        Foi com verdadeira emoo que os dois meninos puseram p em terra; estavam afinal na clebre ilha. Tudo fora to fcil, pensou Eduardo, e Henrique era to 
bom remador, no deviam arrepender-se da mentira pregada aos padrinhos. Que dia divertido e alegre iriam passar ali! Apressadamente tratou de auxiliar Henrique; 
a primeira coisa que fez ao tirar as cordas foi cair dentro da gua e molhar-se todo. Ficou todo enlameado, mas comeou a rir dizendo que tiraria a roupa logo mais 
e o sol a secaria em dois minutos. Com alguma dificuldade, puxaram a canoa o mais perto possvel da terra e amarraram-na a uma rvore prxima com a corda que Nh 
Quim lhes havia emprestado.   Eduardo lembrou-se:
        - Vamos amarrar bem forte, Henrique. Se a corda arrebentar, estamos perdidos porque a canoa vai por gua abaixo.
        Dando dois ns, Henrique respondeu:
        - Voc tem cada idia... A corda no  to velha assim, resiste perfeitamente.   Veja.
        Examinaram para ver se a canoa estava bem segura; tiraram o almoo e a garrafa de gua e puseram tudo em terra firme. Depois comearam a olhar  volta, e 
a caminhar explorando o terreno. Havia arbustos e moitas que eles foram cortando com a faca que haviam trazido; as rvores mais altas, j avistadas de longe, ficavam 
no interior da ilha.   
        Abriram caminho por entre as moitas e foram andando, levavam o almoo e a garrafa de gua, mas no pensavam em comer, to entusiasmados se sentiam. Quando 
padrinho soubesse, havia de admirar a coragem deles; e Quico e Oscar ficariam com tanta inveja... Foram andando e chegaram a uma clareira no meio da mata. Eduardo 
props:
        - Vamos descansar aqui? Minha roupa est to molhada que gruda no corpo.
        Resolveram ento tirar as calas e estend-las; o sol que passava por entre os galhos era suficiente para sec-las. Assim fizeram; estenderam as calas e 
os palets; depois as camisas, depois os sapatos e as meias. Enquanto esperavam que as roupas secassem, abriram o pacote do almoo e comeram a lingia com po e 
os ovos cozidos. Tomaram gua. Henrique resolveu subir na rvore mais alta para ver o que se avistava l de cima, mas desistiu a meio do tronco e desceu dizendo 
que preferia esperar a roupa secar; no podia subir s de cuecas porque os galhos machucavam. 
        Esperaram cerca de meia hora, depois vestiram as roupas ainda midas e continuaram a explorao. Subiram nas rvores, cortaram cips, descobriram frutas 
que nunca haviam visto antes; de vez em quando, Henrique perguntava:
        - Ser mesmo habitada esta ilha? Vamos ver se encontramos algum sinal de gente.
        - Qual o qu! respondia Eduardo. Quem h de morar aqui neste mato?   S bichos.
        E trincava uma fruta entre os dentes para ver que gosto tinha; Henrique avisava:
        - No coma qualquer fruta, pode ser venenosa...
        Por mais que observasse, no encontraram sinal de habitao. Depois de caminhar durante algumas horas, viram serelepes pulando nos galhos mais altos; os 
bichinhos olhavam para os dois meninos com olhos muito vivos, davam grandes pulos e desapareciam entre a folhagem. Eduardo e Henrique acharam graa e comearam a 
assobiar para chamar a ateno dos serelepes. s vezes, ouviam o ruflar de asas sobre suas cabeas; deviam ser pssaros que, assustados com a presena dos dois, 
deixavam seus ninhos e voavam. 
        Mais adiante encontraram uma frutinha vermelha e redonda; comearam a atir-las para cima a fim de atrair os serelepes; de vez em quando gritavam para ver 
o que acontecia. No acontecia nada; parece que os bichos ficavam com medo ao ouvir os gritos e o silncio ento era profundo, nada se movia entre as folhas. Eduardo 
carregava a garrafa com gua e os restos do almoo; encontraram uma nascente e a gua era to pura que tornaram a encher a garrafa. Quando cansaram de andar, Henrique 
props:
        - Vamos voltar ao lugar onde deixamos a canoa? Acho que j  hora de voltarmos para casa.
        -  pena ter de voltar, respondeu Eduardo. Est to bonito o nosso passeio; por mim, ficaria mais tempo.
        Henrique tornou a falar:
        - Pode ficar tarde demais, Eduardo. Estamos longe do lugar onde desembarcamos; andamos mais de uma hora sem parar.
        - Ento vamos voltar.
        Cada um tomou um gole de gua e depois iniciaram a caminhada de regresso. Mas quem diz de encontrar o caminho? Eduardo dizia que era  direita, Henrique 
afirmava que era  esquerda. Ficaram assim discutindo durante uns instantes, depois resolveram caminhar para a direita; andaram uma meia hora e no acharam o caminho 
por onde haviam passado.   Henrique disse:
        - Eu no disse que no era por aqui?  para a esquerda que devemos seguir.  Vamos voltar outra vez.
        Eduardo espantou-se:
        - Nem sei mais onde fica a direita e a esquerda. Onde  a esquerda?
        -  por aqui. Eduardo disse:
        - Eu me lembro que cortei uns galhos desta rvore com meu canivete.   Vamos ver.
        A rvore parecia a mesma, mas no havia nem sinal de cortes de canivete; Henrique falou:
        - Voc sonhou; ns no passamos por aqui, foi por outro lugar.
        - Passamos, disse Eduardo. Juro que passamos. Foi aqui que paramos para ver os serelepes pela primeira vez.
        - Que absurdo, disse Henrique. Tenho certeza que no foi aqui; aqui h frutinhas vermelhas e naquele primeiro lugar onde paramos no havia.
        - Voc est enganadssimo.
        - Onde esto os cortes de canivete que voc fez...? 
        Eduardo passou a mo pela testa:
        -  o que no estou entendendo. Parece que foi aqui, mas no os vejo.
        Comearam a ficar inquietos; pararam um pouco  escuta; apenas ouviam o rudo surdo do rio que corria em redor da ilha. Resolveram ento andar  esquerda; 
entre cips e galhos de espinhos, foram abrindo caminho dentro da mataria; o rio parecia cada vez mais perto, mas nunca chegavam at ele.  Eduardo disse de repente:
        - Vamos parar para escutar; pelo barulho do rio saberemos onde estamos.
        Ficaram imveis uns instantes e ouviram o rudo do rio correndo sem parar; depois ouviram galhos que estalavam perto deles.  Eduardo segurou o brao de Henrique:
        - O que ser? Voc no ouviu o barulho de galhos quebrados?
        - No  nada, disse Henrique.    o vento. 
        Continuaram a andar; quanto mais se aproximavam do rio, mais o rio parecia fugir. Henrique, at ento calmo, comeou a inquietar-se; olhou para cima para 
calcular as horas. Viu as copas das rvores, o cu muito azul e nada de sol.   Levou um susto; o sol j desaparecera?   Ento era tarde, devia ser quase noite. Voltou-se 
para Eduardo, a voz um pouco aflita:
        - Impossvel que seja muito tarde; mas parece que o sol j est sumindo.
        Eduardo perguntou:
        - Pois voc no tem relgio? Veja que horas so... Ento Henrique contou que o relgio parar nas oito horas e ele no havia percebido; com certeza fora 
por causa da gua que entrara no maquinismo. No quisera contar antes para no alarmar o irmo. Eduardo assustou-se:
        - Ento vamos tratar de voltar, pode ser quase noite. Voc devia ter-me contado isso antes; temos de descobrir esse caminho de qualquer jeito.
        Mas no encontravam o caminho. Se andavam para a frente, entravam cada vez mais na mata; se andavam para a direita ou para a esquerda, a mesma coisa. De 
que lado estaria a canoa? Comearam a ficar aflitos, mas um no dizia nada ao outro. Andavam para diante e para trs, sem acertar o caminho. De repente perceberam 
que no era iluso; a noite vinha caindo rapidamente. E o que seria deles, sozinhos naquela ilha? E que pensariam padrinho e madrinha, no os vendo voltar da fazenda 
vizinha?   Henrique murmurou:
        - Que situao a nossa! Vamos ter calma e procurar com calma.
        Eduardo no respondeu e comeou a andar para a frente como se tivesse certeza de haver encontrado o caminho certo. Henrique seguiu-o, um pouco desanimado. 
Estavam cansados e suados; enxugavam os rostos com os lenos, tomavam um gole d'gua e continuavam a andar. Os espinhos de alguns galhos batiam nos rostos de ambos, 
mas eles no se importavam. To preocupados em encontrar a canoa, no pensavam noutra coisa.
        Quando ouviam rudos estranhos na mata, paravam um pouco assustados; um segurava no brao do outro e ficavam esperando. No era nada. De repente, Henrique 
sussurrou:
        - Estou to cansado...    Quase no agento mais. 
        Pararam  ento  por alguns  minutos  e  encostaram-se ao tronco de uma rvore grossa que havia ali perto; Henrique passou o leno outra vez nas faces e no 
pescoo e pediu:
        - D um pouco de gua...
        Eduardo virou a garrafa para baixo, estava vazia sem uma gota sequer.   Henrique suspirou e quis fazer-se forte:
        - No faz mal, quando encontrarmos o rio, bebo bastante gua.
        Olharam outra vez para cima procurando o sol; havia desaparecido. A claridade estava sumindo entre a folhagem. Breve seria noite cerrada. Que fazer? Ficaram 
escutando durante alguns minutos para ver se percebiam o rudo do rio; era cada vez mais forte, mas de que lado estaria? O rio parecia roncar, um ronco forte que 
no tivera antes.   Eduardo perguntou com voz trmula:
        - Ser que vamos dormir nesta mata? Henrique fingiu-se muito animado:
        - Se tivermos que dormir, dormiremos, ora esta.
        - E padrinho?   E madrinha?
        Ficaram quietos uns instantes, depois Henrique disse:
        - Eles vo mandar um camarada  fazenda vizinha e quando souberem que ns no estivemos l, ficaro to aflitos...
        - Nem fale, Henrique. J estou to arrependido. Se soubesse...
        - Eu tambm, mas que podemos fazer? Temos que encontrar a canoa nem que seja para andar a noite inteira.
        Eduardo teve uma idia:
        - Espere aqui; vou subir nesta rvore e, l de cima, verei onde estamos.
        -  mesmo.  Como  que no lembramos disso antes?
        Eduardo tirou o palet e os sapatos e abraou o tronco da rvore; subiu at chegar aos primeiros galhos e parou quase sem flego; Henrique perguntou, todo 
esperanado:
        - V alguma coisa, Eduardo?
        - Nada ainda.   Espere, vou subir mais alto.
        E desapareceu entre os galhos compridos, empurrando a folhagem para um lado e outro. Olhou l de cima - avistou o rio a uma certa distncia; suas guas pareciam 
negras sem a luz do sol brilhante sobre elas. Ouviu a voz de Henrique l embaixo:
        - Est vendo alguma coisa, Eduardo? Estamos longe do rio?   De que lado ele fica?   Veja bem.
        -- Sim, estou vendo o rio.
        Henrique tornou a perguntar, disfarando a aflio:
        - De que lado ele est?   Veja bem. Eduardo respondeu:
        - Est em todos os lados.  direita, vejo o rio;  esquerda, tambm vejo. No entendo.
        Henrique pediu:
        - Veja bem, Eduardo.   No avista a canoa?
        - No, nada de canoa.
        - Ento desa.
        Eduardo desceu mais animado; calou os sapatos e vestiu o palet.   Falou:
        - Eu acho que a gente indo por este lado, chega l num instante.
        - Ento vamos.

A NOITE NA ILHA

        Resolutamente comearam a caminhar; de repente um galho bateu com fora no rosto de Henrique; ele deu um grito.
        - Ai!   Meu rosto est sangrando... 
        Eduardo falou quase gritando:
        - Enxugue o sangue com o leno. 
        Henrique respondeu:
        - Estou enxugando. Por que voc est gritando desse jeito?   Para espantar o medo?
        - No estou com medo, nem estou gritando. Meia hora depois, Henrique parou outra vez:
        - Voc no viu coisa alguma. Onde est o rio? J era hora de chegarmos l.
        Eduardo zangou-se:
        - Ento suba voc na rvore e veja se descobre. Por que no subiu antes?
        Henrique no respondeu; estava com o palet nos braos, atirou-o sobre uma moita, descalou os sapatos e as meias. Procurou  volta uma boa rvore para subir, 
subiu rapidamente e sumiu entre a folhagem. Ficou quieto l cm cima.   Eduardo perguntou:
        - Ento?   V alguma coisa?
        A voz dele veio quase sumida l de cima:
        - Vejo o rio...
        - De que lado?
        -  direita. J sei, temos que ir para o lado direito da rvore.
        Desceu e vestiu-se; caminharam durante uns vinte minutos.   Eduardo perguntou:
        - Estaremos certos?   Acho que voc se enganou. Os dois pararam, hesitantes.   Henrique olhou  volta, era quase noite.   Ouviram um sapo coaxar ali perto. 
Perguntou:
        - Que faremos?
        Ficaram uns instantes em silncio ouvindo os rumores da mata. Ouviram pios de aves, coaxar de sapos, cricri de grilos; de repente Henrique aproximou-se mais 
do irmo e segurou-lhe o brao:
        - Ouviu?
        Eduardo tambm ouvira um rastejar esquisito ao seu lado, mas fez-se de forte:
        - Isso  sapo, dos grandes.  - Henrique sussurrou:
        - Sapo no rasteja, pula. Deve ser algum que anda na mata ou algum bicho grande...
        - Que tolice.   Quem h de ser?
        Houve silncio outra vez. De sbito os rumores foram aumentando; galhos quebravam-se no muito longe deles. Henrique tornou a dizer:
        - O que ser? Parece que anda algum na mata; acho que  gente.
        Eduardo respondeu com voz trmula:
        - Pergunte  quem ;  quem sabe  algum  perdido como ns.
        - Pergunte voc.
        Mas   nenhum  falou;   ficaram   quietinhos,   esperando.
        O barulho aumentou; o corao de Eduardo deu um salto:
        - No  possvel que seja gente; andamos o dia tudo por a e no vimos nada, vamos continuar a procurar a canoa.           
        De repente, choramingou:
        - Henrique, estou com um pouco de medo...
        - Medo de qu?
        - No sei, de tudo.
        - Eu no penso seno na canoa que temos que encontrar.   Coragem. ..
        Continuaram a caminhar ao acaso, um segurando a mo do outro, tal a escurido. A noite cara completamente. Os dois meninos estavam arrependidos de se terem 
arriscado nessa aventura; tinham vontade de chorar, mas queriam mostrar-se fortes, um para o outro. Depois de terem andado durante algumas horas, sentiram o ar mido 
que vinha do rio; o rio estava cada vez mais perto, mas agora isso nada adiantava, pois tinham de passar a noite ali e esperar a madrugada para voltar  fazenda.
        Em silncio caminharam mais um pouco e chegaram afinal  margem do Paraba; estavam to acostumados com a escurido que apesar de ser noite escura, viram 
as guas do rio correndo bem junto deles. Mas nem sinal da canoa, ela devia estar em algum outro lugar; tinham ido parar num lugar errado.
        No sentiram alegria, nem tristeza por terem chegado  margem do rio; estavam to cansados que resolveram ficar ali mesmo. Tiraram os palets, estenderam-nos 
sobre as moitas e sentaram-se. No falavam; cada um pensava com tristeza no erro que haviam cometido. Nunca deviam ter feito isso s escondidas do padrinho. Nunca. 
Que estariam pensando ele, madrinha e os primos naquele instante? Quem sabe estariam aflitos, desesperados mesmo, ao ver que os meninos no voltavam e j era noite 
fechada? Que arrependimento!          Ouviam o coaxar de um sapo enorme; devia estar pertinho deles, to pertinho que, se estendessem a mo, o tocariam. Viram vaga-rumes 
passar e tornar a passar diante deles; mais longe um pouco divisavam a massa escura do rio com suas guas profundas e misteriosas.
        Eduardo rezou baixinho e recostou a cabea no ombro do irmo; estava cansadssimo, mas no queria estender-se sobre a moita; tinha a impresso de que, se 
se deitasse ali, colocaria a cabea sobre o sapo que coaxava to perto. Henrique murmurou:
        - Que  horas  sero,  Eduardo? Ele olhou o cu:
        - Deve ser meia-noite pelos meus clculos; que pena no termos relgio.
        De repente animou-se:
        - Temos a caixa de fsforo, Henrique. Como  que nos esquecemos disso? Vamos acender um foguinho, assim espantaremos os bichos.        
        - Vamos.   Onde esto os fsforos?
        - Aqui  no pacote do almoo.
        Apressadamente, Eduardo abriu o pacote e procurou a caixa de fsforos; de fato estava l. Os dois ficaram contentes e  Henrique  perguntou:
        - Ainda tem alguma coisa para comer? Estou com fome.
        Eduardo falou:
        - E a sede? Na mata voc queria gua. Por que no vai beber no rio?
        - Tenho medo de escorregar na beira do rio; quando amanhecer, eu bebo.
        Enquanto abria o pacote do almoo, Eduardo dizia:
        - Temos ainda alguns ovos cozidos, dois pedaos de lingia e  po.   Esquecemos a laranjada, nem comemos.
        - Vamos comer ento um pedao de laranjada, o resto fica para amanh.
        - Vamos primeiro fazer a fogueira, depois comemos.
        Muito animados, levantaram-se e comearam a procurar pauzinhos secos para a fogueira. De sbito Eduardo deu um gritinho:
        - Ih!   Peguei numa coisa mole... Henrique sentiu um arrepio:
        - Deve ser sapo, no mnimo voc pegou no sapo. Por que no acende um fsforo?
        - Tenho medo de gastar os fsforos e depois no sobrar nenhum. Devamos ter trazido vela; o ideal seria uma lmpada eltrica.
        - Nem fale.
        Eduardo acendeu um fsforo e os dois debruaram-se para o cho procurando pauzinhos secos  luz da chama; s viram mato verde e vioso. Como fazer fogo com 
aquelas folhas verdes?   Henrique pediu:
        - Acenda outro fsforo.
        Eduardo acendeu e tornaram a procurar; nada. Eduardo sacudiu a mo no ar:
        - Ih!   Nossa Senhora!   Quase queimei o dedo.   - Henrique gritou:
        - Achei! Achei um pauzinho seco. Acenda outro fsforo.
        O irmo acendeu outro; puseram as mos em concha  volta da chama e encostaram o pauzinho seco. Foi-se esse fsforo, mais outro e outro e nada de conseguirem 
pegar fogo no pauzinho. Eduardo censurou choramingando:
        - Esse. pau estava meio verde, vamos procurar outro...    Ah!   Meu Deus!





Henrique empalideceu: 

 -  a enchente, Eduardo!   Decerto choveu muito na cabeceira do rio.   Que horror!













        Henrique no quis; disse que podiam assim gastar todos os fsforos e no conseguir fogo. Ento resolveram sentar um ao lado do outro e esperar as horas passarem. 
Ficaram quietinhos esperando. 
        Cochilaram de madrugada, Henrique recostado no ombro de Eduardo. Eduardo no queria dormir, mas no suportou; de repente estendeu-se nas moitas, enrolou-se 
no palet e sentindo a cabea do irmo encostada em seu ombro, dormiu profundamente; no pensou mais em sapos, nem em bicho algum.
        Quando acordaram, viram o rio ali bem perto e o sol que j ia surgindo; levantaram-se e olharam  volta. Eduardo admirou-se:
        - Olhe quanta coisa o rio vem trazendo. O que ser isso?
        Ambos olharam espantados; o rio havia crescido durante a noite de uma maneira assustadora. Estava volumoso e as guas no eram mansas como no dia anterior; 
eram vagalhes pesados que passavam levando galhos enormes e outras coisas.   Henrique empalideceu:
        -  a enchente, Eduardo! Decerto choveu muito na cabeceira do rio.   Que horror!

A ENCHENTE
        
        Ficaram imveis, sem poder tirar os olhos do Paraba; viram passar tbuas, sapatos, roupas, a metade de uma cadeira, troncos de rvore e, de repente, uma 
cabra morta.   Eduardo estendeu o brao:
        - Veja!   Uma cabra!
        Voltou-se para Henrique, plido de susto:
        - Henrique!   Como vamos voltar agora?
        O irmo sacudiu os ombros, fingindo-se corajoso:
        - Pois no viemos at aqui? Podemos voltar tambm.   Vamos procurar a canoa j, j.
        Sentiam os membros doloridos por no terem dormido bem. Eduardo comeou a andar e a mancar dizendo que todo o corpo doa. Esqueceram-se da sede e da fome 
e foram  procura da canoa; tornaram a entrar pela mata e tornaram a perder o rumo.   Henrique disse:
        - No posso mais de to cansado. Vamos parar um pouco!
        Recostou-se a uma rvore e passou o leno pelo rosto; foi ento que Eduardo reparou no rosto do irmo; estava todo marcado pelos arranhes dos espinhos da 
vspera. Props enquanto descansavam:
        - Vamos comer ento.
        Abriu o pacote, distribuiu os ovos, a lingia, o po; comeram sem apetite, to preocupados estavam. Henrique queixou-se:
        - Agora sim  que estou com sede de verdade; e meu rosto est ardendo.
        - Quem sabe encontraremos gua por aqui? Vamos procurar, assim voc lava o rosto.
        -  melhor procurarmos o rio,  mais garantido; vamos voltar.
        Com a claridade da manh, logo encontraram o rio, que transbordava com a enchente. Ambos ajoelharam-se  margem, lavaram os rostos, beberam gua, mas o lquido 
era to barrento e escuro que Eduardo cuspiu-o com cara de nojo. 
        Durante mais de uma hora, foram margeando o rio sem encontrar a canoa. Onde estaria? Por que no haviam marcado bem o lugar onde a tinham deixado? Depois 
de terem procurado mais um tempo ainda, avistaram-na enfim. Mas deram um grito de susto: a canoa estava presa apenas por um fio de corda. 
        A correnteza do rio era to forte que puxava a canoa com fora; a corda, que j era velha, foi-se gastando e apenas um fio ainda resistia; as ondas volumosas 
espumavam  sua volta. Henrique correu e entrou na gua, colocou as duas mos numa das bordas da canoa e, com gua acima dos joelhos comeou a pux-la para a margem. 
Eduardo teve medo:
        - Cuidado, Henrique. O rio est puxando muito, pode levar voc.
        - No h perigo, venha me ajudar.
        Eduardo tirou os sapatos e as meias, arregaou as calas e foi auxiliar Henrique. Os dois tentavam puxar a canoa para terra, mas foi intil; a correnteza 
era muito forte nem parecia aquele rio calmo e manso de um dia antes; rugia e espumava carregando tudo em seu caminho. Henrique gritou:
        - Fora, Eduardo! Segure com fora enquanto vou emendar a corda.
        Comeou a procurar os . pedaos de corda que estavam dentro da gua, misturados com lama e galhos de rvore.   Eduardo comeou a cansar-se, falou:
        - Ande depressa, daqui a pouco no agento mais, o rio tem uma fora danada.  
        Henrique pediu, suplicante:
        - Espere, Eduardo, tenha pacincia. J encontrei uma ponta, falta s emendar; se voc no agenta, estamos perdidos.
        E com as mos molhadas, procurava amarrar essa ponta de corda na canoa; mas com a pressa, atrapalhava-se e a corda escapava-lhe das mos e caa na gua outra 
vez. Eduardo gritou:
        - Venha voc segurar a canoa e deixe a corda por minha conta.
        - Voc no consegue.
        - Consigo.   Venha segurar a canoa.
        Henrique, nervoso, tornou a prender a canoa com as duas mos enquanto Eduardo foi tentar amarrar a corda, mas esta estava to velha que arrebentou duas vezes 
entre as mos de Eduardo.   Henrique ficou aflito:
        - Dobre a corda! Dobre a corda em duas, seno ela arrebenta. Bem Nh Quim disse que a corda era velha.
        Eduardo dobrou a corda, passou pela argola da canoa c conseguiu prend-la na margem. Com um suspiro de alvio, Henrique correu para auxili-lo. Passaram 
a corda pelo tronco de uma rvore prxima e amarraram fortemente. Quando terminaram o servio, .estavam suados e cansados.   Eduardo observou:
        - Voc est vermelho como uma pimenta.
        - E voc est como  um pimento.
        Ambos tinham manchas rubras nas faces e na testa; principalmente Henrique.   Ele sentou-se dizendo:
        - Parece que estou com febre de to quente...         
        Resolveram esperar a enchente diminuir em vez de tentar a volta imediatamente; tinham esperana que a enchente ficasse menos forte. Estenderam-se ali na 
margem durante muito tempo, mas a enchente no diminuiu; pelo contrrio, aumentou.   As guas cresceram tanto que chegaram at onde eles estavam, e o rio rugia que 
dava medo. 
        Eles olhavam para cima e para baixo do rio para ver se viam alguma canoa, alguma embarcao qualquer  sua procura, mas nada viam, a no ser gua e as coisas 
que o rio levava na sua correnteza; viram galinhas mortas descendo com as penas estufadas  e um cabritinho branco. Tudo aquilo ia rolando, rolando sem parar, misturado 
com gua, lama e espuma. 
        De repente viram uma rvore inteira que tambm vinha vindo em direo  ilha; ficaram to admirados que se levantaram para ver melhor; era uma rvore com 
flores amarelas e razes  mostra. Ela rodopiou e foi para mais longe fazendo redemoinhos, depois a correnteza empurrou-a outra vez para o lado da ilha; nesse instante 
os  dois meninos  deram  um grito  de  susto:   a rvore vinha em direo  canoa!!   
        Em dois pulos, Henrique correu para salvar a canoa; conseguiu segur-la com as duas mos, mas era tarde!   A rvore passou dando voltas e arrastou a canoa 
para o meio do rio; a corda era velha, no resistiu.   Eduardo gemeu:
        - Ah!   Meu Deus!
        Henrique no disse nada; ficou mudo assistindo ao desastre; depois escondeu o rosto entre as mos e comeou a chorar. Eduardo correu para o irmo e ps o 
brao sobre o ombro dele:
        - Ora, Henrique, havemos de dar um jeito. Garanto que a esta hora padrinho j vem em nosso socorro. Vamos esperar.
        Henrique soluava:
        - Qual! Como pode adivinhar que estamos na ilha? Ele nunca poder pensar que viemos at aqui... Como vamos voltar agora?
        - Voc vai ver como se arranja tudo; vamos deixar uma fogueira acesa noite e dia; algum h de ver e contar ao padrinho.
        Henrique enxugou as lgrimas com a mo:
        - E no temos mais o que comer; vamos passar fome. ..
        - A ilha deve ter frutas, temos que procurar, vamos andar por a em vez de ficarmos aqui vendo a enchente.
        Henrique ficou mais calmo; parou de chorar e disse que estava cansado, queria ficar ali na margem olhando o rio. Sentaram-se um ao lado do outro e ficaram 
calados, pensando num possvel meio de salvao. O tempo foi passando. De vez em quando tomavam um gole de gua; quando a sede apertava, esqueciam que a gua era 
suja e barrenta; bebiam assim mesmo.   Eduardo perguntou:
        - Ser que vamos passar outra noite aqui?
        - Decerto vamos. Padrinho no pensar que estamos na Ilha Perdida; ela fica muito longe da fazenda e ele nunca h de se lembrar de nos procurar aqui.        
        Eduardo continuou, resoluto:
        - Ento vamos preparar um lugar para a gente dormir;, no podemos ficar muito perto do rio, de repente as guas chegam at ns e nos levam, como levaram 
a canoa.   Elas no param de subir.
        Com a faca e o canivete comearam a cortar uns galhos de rvore para fazer um lugar macio a fim de se deitarem. Depois de prepararem uma espcie de cama 
com folhas largas e galhos finos, Eduardo lembrou-se de procurar alguns paus secos para fazer uma fogueira, se fosse necessrio. Entrou na mata e voltou logo depois 
com uma braada de pedaos de paus bem secos; amontoou tudo ao lado da cama fazendo uma espcie de caieira. Depois disse:
        - Se aqui houvesse uma rvore com tronco bem grosso e largo, poderamos dormir em cima do tronco, como Tarzan.
        Henrique deu um suspiro:
        - Ah! Mas Tarzan estava acostumado desde criana; era como um macaco. Ns no poderamos agentar. A gente caa logo.
        Depois de tudo preparado para passar a segunda noite na ilha, Henrique que parecia cada vez mais desanimado, falou:
        - Estou outra vez com fome; ser que no encontramos nada para comer?
        Eduardo sorriu em triunfo, tirando do bolso um pacotinho onde havia um ovo cozido que ele guardara.  Disse:
        - Olhe, hoje de manh, quando vi a canoa rodar rio abaixo, guardei bem este ovo para quando tivssemos fome.   Vamos com-lo agora.
        Sentaram-se e devoraram o ovo, cada um a metade. Henrique perguntou:
        - E a laranjada?   Tambm acabou?
        - Acabou.  Agora no temos mais nada para comer. 
        Depois inclinou-se na beira do rio, tomou uns goles de gua e encheu a garrafa para tomarem durante a noite. Henrique tambm bebeu gua queixando-se de que 
ela estava cada vez mais barrenta. Olharam o cu; as primeiras estrelas j estavam comeando a aparecer; olharam o rio durante algum tempo na esperana de que surgisse 
alguma embarcao que viesse busc-los. Nada. Somente o rio barulhento e a segunda noite que caa sobre a Ilha Perdida.
        Resignados, resolveram deitar-se na cama improvisada: conversaram um pouco:
        - Ser que padrinho nunca se lembrar de vir nos procurar aqui?
        - No sei, acho bem difcil. Talvez Quico ou Oscar se lembrem.
        - Quem sabe o Bento vai se lembrar...
        - Mesmo que se lembrem, o rio est to bravo com essa enchente que eles no podero atravess-lo.
        - Ento como faremos para voltar?






Eduardo sorriu em triunfo, tirando do bolso um pacotinho onde havia um ovo cozido que ele guardara.











ABANDONADOS

        Ficaram silenciosos durante uns instantes, depois Henrique teve uma idia:
        - E se fizssemos uma jangada? Temos a faca e o canivete, amanh trataremos disso.
        - Mas como  que se faz uma jangada?  No tenho nenhuma idia.
        - Ora, voc no viu a figura de uma jangada nos livros? Cortam-se paus grandes para firmar a jangada; depois, cortam-se paus mais finos para colocar por 
cima e amarra-se bem firme...
        - Amarrar com o que, Henrique? Com os pedaos de corda que sobraram?
        Henrique olhou  volta, pensativo:
        - A na inata deve haver muito cip; amarra-se com cips.
        Eduardo concordou:
        - Vamos tentar; o pior  no termos nada para comer.   Como  que a gente pode trabalhar com fome?
        - Procuraremos frutas. Amanh bem cedo, assim que o sol sair, vou procurar.  impossvel que esta ilha no tenha frutas; qualquer fruta serve para matar 
a fome.
        Eduardo respondeu:
        - E precisamos economizar os fsforos. No sabemos quantos dias ainda ficaremos aqui; precisamos ter sempre fsforos para acender a fogueira. Ao mesmo tempo 
tenho um pressentimento de que amanh vamos ser salvos.
        - Eu no tenho esperana alguma, disse Henrique. 
        Pararam de falar porque ouviram um rudo forte que a princpio no compreenderam o que poderia ser.   Henrique perguntou, admirado:
        - Est ouvindo? O que ser? Parece barulho de motor?
        - Estou, disse Eduardo.  mesmo barulho de motor; eles vm nos buscar numa lancha a motor. Eu no disse que estava com pressentimento? Vai dar certo, voc 
vai ver. Vamos depressa fazer uma fogueira para mostrar que estamos aqui.
        Levantaram-se e apressaram-se em fazer fogo; deram gritos fortssimos:
        - Estamos aqui.   Na ilha!!   Socorro!
        Perderam vrios paus de fsforo antes que a madeira seca pegasse fogo. Afinal uma chamazinha azul comeou a se elevar; Eduardo deu gritos de entusiasmo:
        - Agora eles vo nos encontrar! Ponha mais pau seco, Henrique!   O motor est cada vez mais perto!
        Nesse momento o rudo do motor que parecia to prximo, passou sobre as suas cabeas. Era um avio. Eduardo olhou para cima dizendo desanimado:
        - No  lancha,  avio. Ele no pode nos ver. E vai indo embora to depressa.. .
        Chorou sem parar de falar:
        - E perdemos tantos fsforos. . . Se eu soubesse, no tinha feito fogueira...
        - No faz mal, disse Henrique. Vamos deixar a fogueirinha acesa; se algum v fogo na ilha, vai contar ao padrinho e ele vem ver o que . No chore. Amanh 
comearemos a jangada, voc vai ver.
        Sentaram-se de novo, muito tristes. Logo depois Henrique deitou-se na cama de folhas, ps o brao sob a cabea como se fosse um travesseiro e dormiu. Eduardo 
ficou acordado durante muito tempo, tristonho e pensativo; estava tambm impressionado com a situao. Se ningum viesse procur-los ali poderiam morrer, ou de fome, 
ou picados por alguma cobra venenosa. Devia haver muitas na ilha; lembrando-se disso, ps outro pau na fogueira para que nenhum animal se aproximasse; cansado, afinal 
deitou-se tambm e dormiu.
        Acordaram de madrugada, um pouco assustados com a algazarra que muitas aves faziam nas rvores ali por perto; algumas eram desconhecidas. Da fogueira que 
haviam feito na vspera, nem sinal, apenas cinzas ainda mornas.   Eduardo disse logo:
        - Vamos tratar de procurar alguma coisa para comer; no podemos ficar aqui parados.
        - Estou com o corpo todo dolorido, queixou-se Henrique.   Nunca estive assim, parece que tenho febre.
        -  porque dormimos no cho e no estamos acostumados, explicou Eduardo. Vamos andar um pouco que isso passa. Tenho ainda um pedacinho de po e uma "faisquinha" 
de laranjada que esqueci no pacote. Vamos comer.
        Henrique ficou zangado:
        - Voc me enganou, disse ontem que no tinha mais nada...
        Eduardo explicou:
        - Nem eu sabia, Henrique. Fiquei to atrapalhado que no reparei; e depois precisamos poupar munio. ..
        Tomou um pedacinho de po que j estava bem duro, partiu em dois, colocou sobre eles uns fiapos de laranjada e comeram; comeram bem devagarinho. Quando terminaram, 
Eduardo falou:
        - Agora acabou de verdade; no temos mais nada, temos que procurar.
        Sacudiu o guardanapo onde viera o almoo e esvaziou os bolsos para o irmo ver. Henrique lembrou:
        - Tenho uma idia. Vou tirar a camisa e coloc-la num pau bem alto para chamar a ateno de quem passar na margem.   Que acha?
        - Boa idia. Mas em que pau ser? Deve ser o mais alto possvel.
        Olharam  volta,  procura de uma rvore bem alta; avistaram um coqueiro bem na beira do rio, mas era to alto que parecia muito difcil e arriscado subir 
nele; viram outra rvore tambm na margem, Eduardo falou:
        - Aquela est tima.
        Henrique tirou a camisa, enrolou-a no pescoo e experimentou subir na rvore, mas no conseguiu. Depois de vrias tentativas, voltou-se para o irmo:
        - No posso, meu corpo di tanto, veja se voc consegue.
        Eduardo tomou a camisa de Henrique, e comeou a subir na rvore; mais de uma vez quase desistiu; parou para descansar e tomar flego. Era muito mais difcil 
do que imaginava; lembrando-se, porm, de que disso talvez dependesse a salvao dos dois, fez um esforo supremo e conseguiu chegar at a copa, junto aos ltimos 
galhos. 
        Sentou-se ento l em cima e descansou; depois cortou alguns galhos com a faca para que aquela parte ficasse bem  vista da margem, amarrou as mangas da 
camisa  volta de um galho e deixou a fralda solta para que o vento a agitasse; depois desceu rapidamente. Quando ps os ps em terra, voltou-se para Henrique, a 
fisionomia alegre: encontrara l em cima um ninho com cinco ovos. Tirou-os  do bolso da cala e colocou-os no cho; eram menores que os ovos de galinha e bem pintadinhos. 
Eduardo falou, satisfeito:
        - Hoje no passaremos fome; temos ovos para comer. 
        Henrique admirou-se:
        - Ovos  de qu?
        - No sei; s sei que so ovos e alimentam. No gosto de desmanchar ninhos, acho isso um ato horrvel, mas como  para matar nossa fome, no hesitei.   Sero 
ovos de sabi?
        Henrique examinou-os:
        - Pode ser que sejam de sabi; so bem bonitinhos. Mas tambm podem ser estragados. Xi!, Eduardo, vai ver que  ovo choco.
        - Ser?  Daqui a pouco vamos ver, quero fazer uma fritada.
        - Fritada onde? Em que frigideira? Para fritar ovos  preciso uma frigideira...
        S ento Eduardo lembrou-se de que no havia jeito de fritar os ovos. Ficou olhando para Henrique, de repente sugeriu:
        - E se a gente arranjasse um pedao de madeira to dura como ferro e que resistisse ao fogo?
        - Onde encontrar essa madeira?   Impossvel. 
        Eduardo  coou  a  cabea  tristemente:
        - Ora, se soubesse, no teria desmanchado o ninho. Que pena.
        - Vamos procurar alguma fruta, isso sim.
        Antes de penetrar na mata, olharam para cima; a camisa de Henrique estava desfraldada e o vento a agitava como se fosse uma bandeira. Colocaram os ovos no 
cho e entraram na mata, resolvidos a procurar algum alimento.
        O dia estava muito bonito e o sol prometia esquentar mais tarde; a passarada fazia alvoroo nas rvores mais altas. Para no se perderem como no primeiro 
dia, foram cortando paus e fincando-os pelo caminho para saberem voltar quando quisessem. Andaram durante muito tempo sem encontrar nada. Henrique de vez em quando 
queixava-se de canseira e de fome. Eduardo examinava todas as rvores procurando alguma fruta, mas nada encontrava.
        Assim andando, chegaram ao outro lado da ilha; nesse lugar havia uma espcie de praia e a areia estava cheia de objetos trazidos pela enchente durante a 
noite.   Viram um sapato de criana, pedaos de madeira, uma garrafa. Henrique lembrou:
        - Quem sabe h at uma frigideira para fritar os ovos?   Procure bem, Eduardo.
        Eduardo que se afastara um pouco, chamou Henrique com um grito:
        - Venha!   Depressa!
        Mancando um pouco Henrique correu para perto de Eduardo; ali ao lado do irmo erguia-se uma bananeira. Henrique olhou esperanoso, mas que desiluso - no 
havia cachos de bananas, a rvore era muito nova.
        - Deve haver outras, disse Eduardo. Vamos procurar.
        Andaram cerca de meia hora pela prainha e encontraram mais adiante um cacho de bananas ainda verdes. Eduardo riu com satisfao:
        - De fome no morreremos. Ao menos comeremos bananas.
        Henrique tirou o canivete do bolso e auxiliado por Eduardo derrubou o cacho; eram grandes e pareciam gostosas, mas estavam ainda verdes.
        - Eu como assim mesmo, disse Eduardo. Tenho muita fome...
        Comeram algumas no mesmo instante e as acharam deliciosas; resolveram levar as bananas com todo cuidado para o abrigo improvisado no outro lado da ilha. 
Descansaram um pouco sobre a areia e batizaram aquela parte da ilha com o nome de - prainha. De repente Eduardo foi ficando plido e ps a mo no estmago; fez uma 
careta:
        - Ih! Henrique, acho que estou doente. Estou sentindo umas dores no estmago...
        Henrique queixou-se:
        - Eu tambm no estou muito bem, acho que foram as bananas.   Quem sabe, bebendo-se gua, passa.
        Tomaram uns goles de gua e ficaram deitados na areia uma poro de tempo. Quando se sentiram melhor, Eduardo props ficarem morando na prainha enquanto 
no viesse socorro; assim como haviam encontrado a bananeira, talvez houvesse outras frutas. Ali mesmo poderiam fazer a jangada que projetavam. Henrique concordou, 
mas nesse dia ainda dormiriam no outro lado, porque l haviam ficado os ovos e o pedao de corda que sobrara da canoa.
        Para no perder tempo comearam a trabalhar na jangada; ambos haviam lido num livro de que forma se faz uma jangada. Cortariam primeiro uns paus mais grossos 
para fazer a armao; os paus menores seriam postos em cima e amarrados com cips. Passaram o dia todo e no conseguiram cortar nem um pau, embora manejassem, um 
o canivete, outro a faca. Quando perceberam, o dia estava declinando. Eduardo props atravessar a ilha sozinho e ir buscar os ovos e a corda que haviam ficado no 
outro lado.   Henrique perguntou:
        - E se voc se perder?   Ser muito pior.
        - No h perigo. Deixei todo o caminho marcado; fica nesta direo, olhe. Voc est mancando e com dor no corpo, eu vou num instante.
        - Mas voc teve dor de estmago, falou Henrique.
        - Agora j estou bom.
        Eduardo sentiu vontade de comer mais bananas, mas receou que fizessem mal; bebeu uns goles de gua e entrou sozinho na mata prometendo voltar logo. Henrique 
continuou a procurar paus para a jangada.

A ILHA TINHA HABITANTES

        De vez em quando Henrique assobiava para disfarar a solido. Arrependia-se de haver deixado o irmo ir s; desde que haviam desembarcado na ilha, s haviam 
cometido erros. E se Eduardo se perdesse? Quando sentiu a fome apertar, comeu outra banana e deitou-se para descansar. Sentia-se cansadssimo. Fechou os olhos um 
instante, depois abriu-os novamente e, deitado de costas, ficou olhando o cu. 
        De repente percebeu uma sombra que se aproximava; voltou-se de lado pensando que era o irmo e j ia perguntar: "J voltou?", quando viu um homem desconhecido 
diante dele; tinha barbas compridas, cabelos pelos ombros, estava quase nu. Sobre seu ombro esquerdo carregava um lindo papagaio que olhava fixamente para Henrique.
        O homem tambm olhava Henrique sem dizer nada. Espantadssimo, Henrique tambm no falava, parecia mudo.   De  sbito,  o  homem  perguntou:
        - O que est fazendo aqui? No sabe que esta ilha  minha?
        Henrique levantou-se um pouco amedrontado:
        - No sabia, no senhor.
        O homem deu uma volta examinando o menino, depois continuou a falar:
        - Vivo nesta ilha h muitos anos e no gosto de ser importunado; todos os que vm aqui, vm por maldade:  para caar os bichos que so meus amigos.  Eu no 
gosto disso.
        - Eu no vim para caar, disse Henrique. Viemos passear aqui e a nossa canoa rodou rio abaixo. Agora no podemos voltar, estamos fazendo uma jangada para 
voltarmos. Eu e meu irmo Eduardo. O senhor pode nos ajudar?
        O homem sacudiu a cabea:        
        - No acredito em nada do que voc est dizendo. Vocs vieram aqui para me espiar, para descobrir minha vida. Pois no tero esse gosto; quem vem por curiosidade 
fica meu prisioneiro.   Acompanhe-me.
        Um pouco assustado, Henrique ficou parado na frente dele; depois murmurou:
        - Ns no viemos por curiosidade; nenhum de ns acreditava que a ilha fosse habitada. Pode acreditar no que estou dizendo. Meu irmo e eu viemos passear 
aqui e pretendamos voltar no mesmo dia quando veio a enchente. No pudemos voltar e ficamos esperando a enchente passar; nossa canoa rodou, no pudemos voltar. 
O senhor desculpe, mas precisamos ir embora para nossa casa.
        O homem sorriu e coou a barba comprida. O papagaio gritou:
        - Vamos embora, Simo!
        O homem passou a mo nas penas do papagaio:
        - Quieto, Boni.
        Depois falou para Henrique:
        - Voltar de que jeito? Voc pensa que quem chega at aqui consegue voltar? Est muito enganado, quem vem parar aqui, fica.   Acompanhe-me.
        Henrique hesitou:
        - E o meu irmo Eduardo? O senhor no pode esperar um pouquinho? Ele foi ao outro lado da ilha buscar umas coisas que deixamos l... Se ele no me encontrar 
aqui, ficar assustado.
        A voz de Henrique estava trmula; o homem respondeu, meio zangado:
        - Deixe de lamrias e venha comigo. Por que vieram? Isto aqui  meu e ningum tem direito de tomar o que  meu.   Venha.
        O homem bateu no peito; Henrique resolveu insistir para mostrar que no tinha medo:
        - Faa o favor de esperar Eduardo. Ele no demora, disse que vinha logo...
        O homem no deixou Henrique continuar; zangou-se e respondeu:
        - Menino teimoso e desobediente. Cale-se. No diga uma palavra mais. E acompanhe-me bem direitinho, se no vai se arrepender.
        O homem comeou a andar pela areia; humildemente, Henrique acompanhou-o; sentia dor nos ps e na cabea. Foi mancando atrs do homem que andava depressa; 
olhou para trs com pena de deixar a jangada j comeada. Entraram pela mata adentro. 
        Henrique teve a idia de deixar algum sinal para Eduardo saber o que acontecera, mas no havia nada que pudesse fazer. Ento espetou o canivete numa rvore 
pequena na entrada da mata. Eduardo havia de descobrir o canivete enterrado ali e. havia de desconfiar, quem sabe at seguiria o mesmo caminho. 
        O papagaio comeou a cantarolar sobre o ombro do homem; de vez em quando olhava para trs para ver se Henrique vinha seguindo. Andaram em silncio durante 
algum tempo; os galhos das rvores batiam no rosto de Henrique e ele nem sentia; percebeu que estava escurecendo e logo seria noite fechada.
        Com surpresa Henrique viu de repente um caminho sem arbustos, sem cips, sem rvores; era uma pequena estrada bem limpa, sem nada que atrapalhasse os caminhantes. 
Pensou que Eduardo e ele haviam andado tanto atravs da ilha e no tinham descoberto aquela bonita estrada.           
        O homem caminhava na frente, sem olhar para os lados e sem falar; dava passos largos como se estivesse muito acostumado a andar por ali. Nesse momento Henrique 
reparou que ele carregava uma machadinha na cintura.
        Chegaram ao fim da estrada; com surpresa, Henrique viu na frente deles uma escadinha de pedra, mas to escondida entre a folhagem que seria difcil ou quase 
impossvel descobri-la. O homem levantou a folhagem com os braos compridos e, depois que Henrique comeou a subir, deixou cair a folhagem novamente e nada mais 
se viu da escada. Subiram uns degraus at chegar  outra parte da ilha, muito mais elevada que a primeira. Ali devia ser a habitao do homem barbudo; havia rvores 
pequenas cheias de flores azuis e roxas, papagaios, periquitos, macacos. Era bem a ilha que Henrique imaginara. A bicharada comeou a fazer barulho ao ver o homem, 
mas ele levantou um brao pedindo que ficassem quietos e tudo se aquietou.
        Ento Henrique viu uma espcie de gruta de pedra em cima de um barranco; ao lado do barranco, duas rvores gigantes. Uma outra escada de quatro degraus, 
feita de cips e tbuas, conduzia  porta da caverna. Quando Henrique levantou os olhos para a morada do homem, ficou branco de susto: deitada na entrada da gruta, 
uma oncinha pintada lambia as patas. Era pequena, mais parecia um gato enorme; tinha olhos amarelados, o plo brilhante todo cheio de pintas amarelas e bigodes de 
fios compridos e pretos. Quando viu Henrique passar ao lado, ela levantou-se com o plo eriado e assoprou como um gato quando est bravo: ufffff ufffff... Mas o 
homem falou umas palavras que Henrique no compreendeu e ela acalmou-se.   Tornou a deitar-se e a lamber as patas.
* * *
        Entraram na caverna.   Era bem grande e forrada de areia clara; sobre a areia havia peles de animais e folhas secas; de um lado estava a cama do homem; era 
feita de tiras de couro tranadas e presas nos paus da cama. Sobre as tiras, estavam estendidas peles de animais servindo de colcho e uma espcie de manta feita 
de penas coloridas de aves.
        Nas paredes da gruta, viam-se penas, plantas, armas feitas de pedra. Henrique olhava tudo, mudo de admirao. A oncinha deu umas voltas pela gruta, depois 
deitou--se na entrada como se fora um co de guarda



- E o senhor mora nesta ilha desde moo?

- Desde que eu tinha vinte e poucos anos.












                O homem disse a Henrique que se deitasse sobre um colcho de penas de aves; no era propriamente um colcho, mais parecia uma colcha multicor. Henrique 
estava to cansado que obedeceu imediatamente; deitou-se e sentiu-se melhor. O homem ofereceu-lhe uma bebida numa caneca feita de madeira; Henrique tomou uns goles 
e sentiu um gosto amargo. Devia ser feita de frutas ou folhas fermentadas; mas sentiu um grande bem-estar e cerrou os olhos.
        Quando os abriu, viu o homem andando de um lado para outro, preparando o jantar; s ento Henrique percebeu que j era noite e havia uma lanterna no canto 
mais escuro da caverna. Era uma luzinha fraca, mas iluminava tudo muito bem. Vendo a chama avermelhada numa vasilha de ferro, Henrique no pde deixar de perguntar:
        - Que espcie de leo o senhor usa na lmpada?
        - leo de capivara, respondeu o homem mexendo a comida no fogozinho.
        - E o senhor mora nesta ilha desde moo?
        - Desde que eu tinha vinte e poucos anos.
        Henrique queria conversar mais e saber uma poro de coisas, mas o homem barbudo no queria conversa. Henrique ficou meio deitado olhando a luz que o vento 
fazia oscilar; um ventinho fraco penetrava pela porta da gruta.   Depois Henrique perguntou:
        - E mora sozinho aqui?
        - Tenho vrios companheiros, no est vendo? Esto sempre comigo.
        S ento Henrique reparou nos outros animais que estavam na caverna: uma tartaruga, uma coruja com olhos muito abertos e redondos e um morcego que comeou 
a andar de um lado para outro arrastando as asas enormes. A coruja e o morcego estavam se preparando para sair; dormiam durante o dia e,  noite, enquanto os outros 
animais dormiam, eles saam para percorrer a ilha.

HENRIQUE PENSA QUE EST SONHANDO

        Nesse mesmo instante Henrique ouviu gritos agudos do lado de fora da gruta; eram uma espcie de guinchos. O homem que estava quebrando ovos numa lata, nem 
se perturbou. Assustado, Henrique olhou para a entrada de pedra e quase deu um grito de espanto: cinco micos entraram um atrs do outro, dando guinchos e piscando 
os olhinhos muito vivos; ao mesmo tempo mostravam ao homem o que haviam trazido. Alguns deles carregavam um ovo em cada mo e outro enrolado na ponta da cauda; outros 
traziam frutas apertadas nas mozinhas negras. Eram maracujs, mas Henrique nunca os vira to grandes assim.
        O homem falou com os micos mostrando-se muito satisfeito e tudo o que eles haviam trazido foi depositado numa cesta feita de cip. Depois foram para o outro 
lado, onde havia um grande cacho de bananas maduras e comearam a com-las, uma atrs da outra. Em seguida aproximaram-se de Henrique cheios de curiosidade por v-lo 
ali, e comearam a examin-lo; um estendeu a mo com muito cuidado e apertou o brao de Henrique, outro cheirou-lhe a cabea, depois arrancou-lhe uns fios de cabelo 
e examinou-os bem de perto. Outro ainda sentou-se aos ps de Henrique e inclinando-se comeou a olhar-lhe os sapatos com muita ateno. 
        Henrique achou graa; os miquinhos eram mesmo engraadssimos;  mas  depois foram tomando tal confiana que um deles sentou-se na barriga do menino e comeou 
a dar pulinhos, outro coou o nariz de Henrique com uma fora danada. Henrique pensou:    "Nossa Senhora, ele vai esfolar meu nariz".
        Foi ento que o homem voltou-se e deu um grito com os micos:
        - Um! Dois! Trs! Quatro! Cinco! Deixem o menino!
        Como se fossem crianas peraltas, os micos largaram a brincadeira e amontoaram-se num dos cantos da gruta, um coando a cabea do outro e piscando para Henrique. 
Ele riu e perguntou ao homem barbudo:
        - Eles se chamam Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco? Que nomes engraados!
        O homem voltou-se para Henrique e disse meio sorrindo:
        - Eu no sabia como havia de cham-los quando os encontrei; estavam meio mortos de fome, a me tinha morrido. Contei vrias vezes. Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco 
e resolvi cham-los assim.  Boni tambm sabe cham-los.
        - Boni  o papagaio? perguntou Henrique.
        - .
        Nesse instante a oncinha entrou muito silenciosamente, pegou um grande osso e comeou a ro-lo, apertando-o entre as patas. O homem apresentou a Henrique 
uma folha larga que servia de prato; sobre ela havia um mexido de ovos e carne que Henrique comeu com a mo; no havia garfos, nem colher.         Achou a comida 
deliciosa e estava curioso por saber que espcie de carne seria aquela, mas no teve coragem de perguntar. Os bichos todos olhavam para ele, pois era um estranho 
ali. Para mostrar que no tinha medo, Henrique levantou-se, tomou um pouco de gua que havia num canto dentro dum pote de madeira, depois deitou-se de novo; ainda 
se sentia cansado.
        O homem ofereceu-lhe frutas e mel numa outra folha; ele aceitou e agradeceu outra vez. Achou tudo muito bom, pois estava faminto. Assim que acabaram a refeio, 
a coruja bateu as asas e voou para fora; o morcego saiu silenciosamente e desapareceu. A oncinha acabou de roer o osso, espreguiou-se, lambeu-se toda, passou mais 
de uma vez pelas pernas do homem como se fosse um gato e deixou a gruta, saindo pela noite afora em busca de caa.
        O homem apagou a lmpada e disse a Henrique:
        - Trate de dormir; talvez estranhe a cama, mas  s isso que posso oferecer.   Boa noite.
        - Est tudo muito bom, respondeu Henrique. Nunca pensei encontrar nesta ilha uma morada to interessante e to boa como a sua. Aqui o senhor tem tudo: cama 
fofa, comida boa, animais amigos da gente. Muito obrigado por tudo.   Boa noite.
        Os micos ficaram juntinhos um ao lado do outro e prepararam-se para dormir; s a tartaruga ficou acordada na entrada da caverna; o papagaio, que estivera 
andando o tempo todo pela gruta e comera alguma fruta, ficou quieto num canto.   Resmungou qualquer coisa e dormiu.
        O homem deitou-se no leito de couro e penas e comeou  a  ressonar.   Henrique  preparou-se  tambm  para dormir; nesse momento sentiu o corao apertar-se 
de tristeza: onde estaria Eduardo? Que pensaria ele no o encontrando na prainha?   E os padrinhos?   E os pais em So Paulo sem saber de nada?   aquele homem barbudo 
que o tinha prisioneiro e quase no falava?   O que seria dele ali prisioneiro?   At quando ficaria na caverna?   Era preciso fugir, sim, fugiria. Na noite seguinte, 
sairia da caverna enquanto  estivessem  dormindo  e  acharia  o  caminho  da prainha.   
        No podia ficar sempre na gruta.   Impossvel. Sentia um vento  fresco  que entrava pela porta  da caverna; voltou-se na cama vrias vezes antes de dormir; 
apalpou as penas, apalpou a cama tambm. Estaria sonhando? Sim, devia estar sonhando. Parecia impossvel que naquela ilha to perto da fazenda, vivesse um homem 
solitrio numa caverna e rodeado de bichos. Estava sonhando; tudo aquilo era sonho e no dia seguinte tudo seria diferente.   Pensando assim, Henrique dormiu.
A ESTRANHA VIDA DO HOMEM BARBUDO

        ACORDOU no dia seguinte com um chilrear incessante de pssaros na entrada da gruta; deviam ser milhares. Olhou  volta e admirou-se; estava sozinho. Levantou-se 
ainda com o corpo todo dolorido, desceu a escapa de cip e saiu. No planalto que havia na frente da caverna, uma centena de pssaros de todas as cores rodeava o 
homem barbudo; uns sobre os ombros, outros sobre a cabea, outros ainda passeando pelos braos estendidos do homem. Quando viram Henrique, assustaram-se e voaram 
para as rvores prximas, onde continuaram a chilrear e a cantar. Henrique nunca vira espetculo to bonito.
        Agora,  luz do dia, admirava-se de tudo, pois, na tarde anterior estava to assustado que no pudera observar bem a morada do homem. A gruta era imensa; 
uma espcie de caverna de pedra oculta pelas rvores e arbustos; por mais que se olhasse, no se descobria a entrada da gruta.
        De um lado desse planalto, havia uma inclinao do terreno que levava a um lago pequeno com gua cristalina e azulada. L estava a tartaruga tomando banho 
na beira do lago; ela mergulhava e tornava a aparecer, o pescoo fora da gua.
        Extasiado, Henrique no sabia o que,mais admirar quando o homem se aproximou oferecendo frutas; eram mames pequenos e avermelhados.   Henrique no gostava 
de mamo, ia recus-los quando resolveu o contrrio, pois l no havia caf com leite e po. O mamo era to doce que parecia aucarado; Henrique comeu dois num 
abrir e fechar de olhos, dizendo que nunca apreciara mames, mas aqueles eram gostosssimos.
        Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco rodeavam o homem como se esperassem ordens; de repente ele estendeu o brao para uma parte da ilha, falando:
        - Vo ver se os cocos esto maduros; se estiverem, tragam todos.
        Os micos eram bem pretos, tinham as cinturinhas finas, caudas longas e peludas. Deram grunhidos de satisfao ao ouvir as palavras do homem e logo pularam 
para a rvore maior que havia ali dando gritinhos agudos. Henrique olhou para v-los melhor mas no viu nem sinal dos micos, j haviam desaparecido entre a folhagem. 
Perguntou:
        - O senhor ensinou esses micos?
        - Ensinei-os desde pequenos, respondeu o homem. So meus amigos; como disse ontem, encontrei-os sozinhos na floresta. Trouxe-os comigo e os domestiquei; 
chamo cada um por um nmero.
        - Que engraado!   E a oncinha?
        - Tambm a encontrei ainda pequena; tinha uns quinze dias quando a salvei da morte; trouxe-a para aqui e criei-a.   Nunca mais quis me deixar.   Vive na 
gruta.
        Henrique no pde deixar de perguntar:
        - E h mais onas na ilha?
        - No. Nunca encontrei nenhuma; sei que h onas nas florestas ao longo do rio, mas aqui no. E se houvesse onas aqui na ilha,- no fariam mal algum. Elas 
temem os homens civilizados. Eu sou igual aos animais; vivo como eles vivem e no os ataco. Todos me conhecem.
        Henrique hesitou um pouco, depois disse:
        - Ontem ao jantar o senhor me deu carne para comer.   Que carne era?
        - Carne de capivara; tenho um cercado onde crio algumas para comer; a carne parece um pouco com carne de porco. E tambm tiro o leo que me serve muito. 
As nicas carnes que como so a de peixe e a de capivara de vez em quando. J me acostumei s com frutas, ovos e legumes.
        Nesse momento um lindo veado apareceu no planalto; quando viu Henrique, parou hesitante. Mas o homem sorriu para ele chamando:
        - Venha, Lucas.   No tenha medo.
        O veado aproximou-se e o homem cocou-lhe a cabea durante uns minutos. Depois perguntou virando-se para Henrique:
        - Como  seu nome?
        - Meu nome  Henrique; tenho um irmo chamado Eduardo que est tambm na ilha. Deve estar aflito sem saber onde estou.   Coitado!
        O homem no respondeu e convidou Henrique para dar uma volta. Foram os trs: o veado Lucas tambm. 
        A todo momento Henrique sentia verdadeira admirao pelo homem barbudo. Viu um pequeno pomar escondido no meio da mata atrs da caverna. Havia mamoeiros 
de um metro e pouco de altura carregados de mames maduros, laranjeiras cobertas de laranjas amarelas; viu figueiras, bananeiras, pessegueiros, macieiras. Depois 
do lago onde o homem tomava banho, a gua corria para uma pequena horta, onde havia batata-doce, abbora, car, mandioca. Chegaram ao cercado onde as capivaras moravam; 
eram parecidas com porcos.
        Mais adiante, aparecia o rio e nesse lugar o homem pescava duas ou trs vezes por semana. Voltaram por outro caminho, onde Henrique viu grotas, pedras enormes 
e nascentes de gua pura entre pedrinhas e flores.
        E por toda a parte havia pssaros, macacos, veados, papagaios; quando eles passavam, uns pulavam de contentamento, outros gritavam; os papagaios falavam:
        - Bom dia, Simo!   Bom dia, Lucas!        
        Bon saltou do meio dos companheiros e foi para o ombro de Simo. O homem acariciou-lhe a cabecinha e o papagaio fechou os olhos, satisfeito.
        Henrique estava cada vez mais admirado; de repente, no se conteve:
        - O senhor tambm ensinou o papagaio?
        - Boni? Vive comigo h muitos anos. Dei-lhe o nome de Bonifcio, mas como esse nome  muito comprido, digo apenas - Boni.  um bom amigo. Dorme na gruta 
e de manh bem cedo vem brincar com os companheiros nas rvores do pomar.
        Henrique sorriu a uma idia:
        - Ento o senhor vive como Tarzan... No ouviu falar de Tarzan?
        O homem barbudo ficou curioso por saber a histria de Tarzan; ento sentaram-se numa pedra,  sombra de uma figueira enorme e Henrique contou tudo que lera 
a respeito de Tarzan. Simo escutou achando graa; mas as vidas de ambos no eram iguais. Tarzan vivia na floresta e no conhecia outra vida; ele abandonara a vida 
civilizada e fora viver na floresta porque queria. Era diferente. Levantaram-se e ele convidou Henrique para voltar, pois era hora do almoo.
        O veado Lucas encostou o focinho na perna do homem como se se despedisse e, num salto muito gil, desapareceu na floresta.   Simo falou:
        - Pode me chamar de Simo e no precisa dizer senhor.   Henrique perguntou:
        - Lucas foi embora?   No volta mais?
        - Amanh ele volta outra vez; visita-me todos os dias.    outro bom amigo.
        Ao chegar ao planalto ouviram uma algazarra; eram os micos que haviam voltado da excurso em busca dos cocos; cada um trazia vrios cocos numa cestinha a 
tiracolo.   Entraram na caverna para guard-los e tornaram a sair dando guinchos alegres.   Simo props:
        - Henrique, vamos subir na rvore para inspecionar.
        Os micos subiram antes e Simo subiu atrs deles; Henrique no conseguiu chegar aos galhos mais altos; ficou olhando de baixo e pensando: "Agora estava bom 
para fugir, enquanto eles esto l em cima. Vou descer e procurar Eduardo, eles no me pegam mais".
        Num instante estava embaixo da rvore outra vez; olhou para cima, no se via nada, o homem e os micos haviam desaparecido, pois a rvore era altssima. Henrique 
olhou  volta pensando que estava s, mas no estava. Ao dar os primeiros passos em direo  floresta, viu a oncinha; ela estava deitada num galho baixo de rvore 
e olhava Henrique com olhos vigilantes. Henrique teve a certeza de que se comeasse a correr, a oncinha havia de persegui-lo. Sentou-se no cho e esperou outra oportunidade.
        Logo mais desceram os micos e Simo; haviam olhado  volta da ilha, como faziam vrias vezes por dia e nada haviam visto, a no ser o rio e a floresta das 
margens. Era uma inspeo que faziam todos os dias para ver se algum importuno desembarcava naquele lugar que era s deles. Assim vigiavam sempre os arredores da 
ilha.
        Simo desceu, abriu os cocos com a machadinha e foi para dentro da caverna preparar o almoo; Henrique acompanhou-o. S ento observou que havia uma espcie 
de forno num canto da caverna; era feito de barro. Ali Simo preparava a comida e, durante o inverno, o forno ficava sempre aceso com bastante fogo para aquecer 
a gruta.   Henrique perguntou se fazia frio na ilha.
        - s vezes, respondeu Simo. Nos dias muito frios, a caverna fica cheia de bichos que vm se aquecer aqui.
        - Deve ser engraado, disse Henrique.
        - J estou to acostumado que nem reparo, disse Simo.
        Henrique procurou a chamin. Simo mostrou-a, estava atrs, entre as pedras e era to boa que levava toda a fumaa para fora.
        Como na vspera  noite, Simo preparou num instante a comida para ambos: batata-doce com pedaos de coco triturados entre duas pedras prprias para isso. 
Como sobremesa, maracujs dos grandes.   Henrique perguntou:
        - Simo, quem plantou todas essas frutas na ilha? Ele respondeu:
        - Algumas so nativas daqui, outras eu trouxe quando vim.
        Henrique tornou a perguntar:
        - Quando o senhor veio para c, veio para ficar?
        - Vim para ficar.   No me chame de senhor.
        - E no gosta das cidades?
        - No. Prefiro viver nas florestas, ser livre, fazer o que quiser.   Sou muito esquisito.
        Henrique olhava para ele achando-o extraordinrio; tornou a perguntar:
        - E no se importa em viver sem falar com ningum?
        - No. Sempre gostei de falar pouco; e aqui falo com meus companheiros. So excelentes porque no respondem e esto sempre contentes.
        Foram interrompidos por gritos estranhos vindos da floresta; Simo foi olhar pela abertura da gruta enquanto o corao de Henrique deu um salto no peito: 
no seria Eduardo? Devia ser Eduardo que descobrira o caminho da caverna.
        No era. Era um bando de macacos trazendo um macaquinho doente para Simo curar. Foi uma das coisas mais extraordinrias que Henrique viu naquela ilha; todos 
os macacos ficaram  volta da gruta e com gestos e guinchos mostravam o doente a Simo. O doente era um pouco maior que os outros e estava com uma perna quebrada.
        Simo examinou-o muito bem, depois fez duas talas de madeira fina e colocou-as na perna do animal; em seguida deu uma bebida para o doente tomar; ele bebeu 
o remdio fazendo caretas horrveis e cuspindo. A macacada olhava em silncio o trabalho de Simo; quando terminou, ele fez um gesto dizendo que podiam ir embora. 
O bando dispersou-se num instante entre os galhos das rvores; o doente foi coxeando atrs de todos. Henrique perguntou:
        - O senhor tambm  mdico deles?
        - Fao o que posso, respondeu Simo. Curo aqueles que posso curar; eles sabem disso, por isso vm me contar tudo o que acontece e pedir socorro. Tenho curado 
aves, veados, e outros bichos que aparecem. Uma vez tambm estive doente, com muita febre, e todos eles vieram me visitar como se quisessem fazer alguma coisa por 
mim. Os micos davam-me gua para beber, Boni trazia frutas, todos me trataram um pouquinho. A oncinha no me largava dia e noite.
        Henrique sentia-se cada dia mais admirado.   Nunca pensou que existissem homens como Simo.

NO MUNDO DA MACACADA

        Henrique estava vivendo uma vida to estranha que s vezes parecia sonho. Acompanhava Simo todas as manhs ao banho no lago, depois iam pescar. s vezes 
trabalhavam na horta ou limpavam o pomar, sempre juntos. O veado Lucas aparecia quase todos os dias, muitas vezes acompanhado por mais dois ou trs companheiros. 
A oncinha vivia na caverna como se fosse um gato numa casa; dormia durante o dia e saa  noite para caar. Lambia as patas e o plo, passava as patas na cara como 
se a lavasse, deitava-se de barriga para cima e muitas vezes brincava com os micos.
        Henrique j estava acostumado com todos os habitantes: a coruja, o morcego de asas compridas, a tartaruga, e com Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco.
        Brincava durante horas com os miquinhos e j estava aprendendo a pular de um galho a outro com a maior facilidade. Era bem tratado e no tinha de que se 
queixar, pois todos eram bons para ele. Apesar disso, pensava sempre em fugir. Onde estaria seu irmo Eduardo? E os padrinhos? Como poderia viver sempre ali com 
Simo e os bichos? No era possvel. Tinha de dar um jeito e fugir; pensava todas as noites em planos de fuga.
        Dias depois apareceu o macaco que havia quebrado a perna; apareceu com mais dois companheiros e trouxe cocos para os habitantes da caverna.   Simo examinou 
a perna e tirou as talas; ele j estava bom, mas ainda mancava.
        O macaco estava contente; saltava e dava guinchos como se quisesse exprimir seu agradecimento. 
        Com a machadinha, Simo abriu os cocos e deu um para Henrique; ali mesmo tomaram a gua de coco, que estava saborosa.
        Em seguida os macacos convidaram Henrique para um passeio na floresta; com os braos estendidos, mostravam a mata repetidas vezes, depois andavam um pouco 
em direo a ela e voltavam outra vez; seguravam a mo de Henrique e tentavam arrast-lo. Ele hesitou, Simo permitiria?






Henrique sentiu nesse momento o corao apertar-se de tristeza: 



Onde estaria Eduardo?







        No mesmo instante, Simo disse que ele podia ir. Henrique pensou na fuga; apresentava-se agora uma tima ocasio para fugir. Resolveu acompanhar os macacos; 
o macaco que Simo curara, ia dando pulos pelo cho; s vezes saltava nos galhos baixos, estava sempre ao lado de Henrique; os outros haviam desaparecido nas rvores; 
iam pulando de galho em galho.
        Andaram assim durante umas horas pelo meio da mata; Henrique olhava de um lado para outro procurando sinais de Eduardo. O irmo no teria passado por ali? 
E pensava na prainha; Eduardo devia estar na prainha esperando-o.         Pensou em abandonar o macaco de perna quebrada e fugir, mas o "perna quebrada" no o deixava 
um minuto; s vezes subia rapidamente numa rvore, colhia uma fruta e a trazia para Henrique; apanhava algumas que Henrique no conhecia e nunca havia comido. Henrique 
saboreava a fruta e continuava a andar; assim caminhando, chegaram ao lugar mais sombrio da mata.
        Henrique deu uns passos para o lado contrrio tentando enganar o "perna quebrada", mas este estava alerta; correu, pegou a mo de Henrique e puxou-o para 
outro lado.
        De repente pararam; o "perna quebrada" ficou  escuta como se ouvisse qualquer coisa; Henrique ouviu um zunzum como se ali perto houvesse uma reunio de 
pessoas, mas os rudos eram estranhos e ele ficou sem compreender. Escutaram durante uns segundos, depois viram um dos macacos descer de uma rvore prxima e fazer 
sinal para que o acompanhassem.
        Silenciosamente, caminharam no meio da folhagem que nesse lugar era muito cerrada e Henrique percebeu que estavam cada vez mais prximos do tal barulho. 
De sbito pararam e olharam para cima: numa rvore gigante que havia ali ao lado, Henrique viu uma poro de macacos sentados, alguns entre os galhos, outros de 
p em atitude zangada, outros em atitude humilde.
        Os companheiros convidaram Henrique a subir numa rvore ao lado, como se fossem assistir a um espetculo. Henrique, que s usava um calozinho para facilitar 
os movimentos e estava cada dia mais perito nesse exerccio, subiu agilmente. Sentou-se num dos galhos mais altos acompanhado pelo "perna quebrada" e os outros dois. 
        Olhou a cena: diante dele, na rvore gigante, havia uma reunio de macacos. Seriam uns trinta ou mais, alguns ainda moos, outros com cara de velhos, sonolentos; 
uns quietos, outros confabulando com os vizinhos. Henrique pensou: "O que ser isso? Parece que eles tambm tm juizes e vo julgar algum criminoso.   Que ser?"
        Percebeu quase imediatamente que era uma espcie de jri no qual estavam julgando quatro macaquinhos que haviam cometido um erro qualquer. 
        Henrique arregalou os olhos de espanto; achou tudo to interessante que se esqueceu de fugir. Os quatro culpados estavam juntos, um ao lado do outro, num 
galho do meio; olhavam para o cho, envergonhados e arrependidos. Em outro galho comprido estavam as testemunhas; eram umas vinte. s vezes, quando interpeladas 
por meio de gestos e guinchos, ficavam de p e acusavam os culpados apontando os braos e guinchando.
        O macaco mais velho, que parecia o juiz, tinha plos brancos na cabea e no queixo; estava ao lado de mais dois macacos velhos, todos sentados confortavelmente 
num galho grosso.
        Os outros macacos, espalhados pela galharia, eram os assistentes; s vezes faziam sinais entre si e davam saltinhos no mesmo lugar, manifestando entusiasmo.
        Com a mxima ateno, Henrique olhava, admirado. Em certo momento, uma das testemunhas comeou a falar; saltou para o cho, enrolou uma fruta na ponta da 
cauda, voltou para o galho e mostrou-a para toda a assistncia virando-se para todos os lados; a assistncia, silenciosa, olhava a fruta, causa do julgamento:  era 
um maracuj.
        Os culpados baixaram mais as cabeas; Henrique percebeu que o crime fora roubo. Eles, com certeza, haviam roubado frutas de algum companheiro. Quando a testemunha 
parou de mostrar a fruta e fazer gestos e depositou o maracuj no cho, Henrique viu um monte de maracujs, mangas e jatas. Os jatas eram enormes e eram chamados, 
na ilha, de "pao-de-l-de mico".
        O roubo havia sido grande. Um macaquinho magro e nervoso, pulou para perto dos culpados e apontando-os com a mo direita estendida, comeou a guinchar; Henrique 
sups que fosse o advogado de defesa e, "falando" a favor dos culpados. Fazia gestos engraados e, cheio de dengues, coava a barriga a todo o momento e fazia caretas 
para a assistncia boquiaberta.
        Percebia-se que ele queria provar que o roubo no tinha a importncia que os outros estavam dando; roubar frutas no  crime. Os quatro culpados sentiram-se 
mais alegres e animados; levantaram as cabeas e encararam o juiz; este coou a barba branca e ficou escutando.
        Quanto mais o advogado fazia gestos e dengues e mostrava as frutas com ar de pouco caso, mais os quatro macaquinhos ficavam animados no galho; pareciam rir. 
Um chegou a mudar de posio e mostrou os dentes  assistncia; estava rindo.   Houve um silncio depois que o macaquinho advogado terminou a defesa.
        Os outros todos ficaram ansiosos esperando o resultado, mas a sesso ainda no terminara; apareceu um macaco grande, de rabo mais comprido que os outros; 
antes de comear a guinchar, ficou dependurado pela cauda bem na frente dos quatro culpados e comeou a fazer caretas; era a acusao. Discursou acusando os quatro 
culpados; deu urros, saltos, pulos; mostrou as frutas no cho, depois tomou uma delas com a mo e encostou-a quase no nariz do juiz. O macaco velho recuou e fez 
um gesto de enfado como quem diz:    "Pra que tanto barulho?"        
        A assistncia gozava com tudo o que via. Henrique percebeu que a sesso se iniciara algumas horas antes da sua chegada; os assistentes comiam jogavam os 
caroos de fruta nas cabeas dos que estavam mais abaixo. Outros levantavam-se, davam umas voltas e vinham outra vez esperar o resultado do julgamento.
        Aqueles que eram atingidos por caroo de fruta na cabea ficavam furiosos e queriam avanar no agressor, mas os outros pediam silncio.
        De sbito o advogado da acusao, que estava de p ao lado das frutas, dependurou-se pelo rabo e continuou a fazer caretas de cabea para baixo; parecia 
acusar fortemente os quatro rus pedindo uma boa surra para cada um deles. E ento, talvez para mostrar o castigo que devia ser aplicado aos culpados, pegou uma 
varinha e surrou a si prprio. 
        Nesse momento houve grande algazarra entre a macacada; os parentes dos acusados comearam a se lamentar e a guinchar todos ao mesmo tempo em sinal de protesto; 
olhavam para o juiz pedindo socorro. Ele era quem devia decidir; o macaco velho tornou a coar a barba branca, piscou repetidas vezes os olhos e, inclinando--se 
para os lados, consultou os companheiros que pareciam to velhos quanto ele.
        Como a assistncia continuasse a se manifestar ruidosamente, o juiz guinchou forte como a pedir silncio; no foi atendido. Ento o juiz e os dois companheiros 
ao seu lado comearam a jogar bolotas com toda a fora sobre os assistentes barulhentos. Henrique no percebeu de onde saa tanta bolota; diante de tal tiroteio, 
a assistncia resolveu comportar-se melhor.
        Ficaram quietos; o juiz preparou-se para "falar". Os quatro rebeldes, to animados durante a defesa, estavam agora de cabea baixa, humildes e tristonhos. 
O juiz levantou-se com toda imponncia, o rabo erguido; andou de um lado para outro sobre o galho entre os dois companheiros que se afastaram respeitosamente.
        Um assistente, sentado num galho acima do juiz, deu um palpite qualquer.  O "magistrado" percebeu quem havia cometido o desacato e resolveu castigar   o 
malcriado, dando-lhe com a ponta da cauda  uma pancadinha no muito leve; o barulhento quase caiu de cima do galho e por isso resolveu ficar quieto e no se manifestar 
mais.                 
        O juiz, que tinha uma barriguinha  redonda piscou repetidas vezes, coou-se todo e comeou a "discursar"; de vez em quando parecia pedir opinio a doze macaquinhos 
que estavam num galho separado e que deviam ser os jurados.
        Os jurados ouviam com ateno a arenga do juiz e de quando em quando sacudiam a cabea como que confirmando. Qual seria a sentena? A expectativa era enorme 
entre a macacada; no tiravam os olhos do juiz. Alguns parentes dos quatro rus protestavam enquanto outros pareciam chorar, e os quatro condenados esperavam a sentena.
        O advogado da acusao, o tal de rabo comprido, parecia rir; batia as mos uma na outra, todo satisfeito. De repente o juiz deu a sentena; coou primeiro 
a barriga, piscou, sussurrou qualquer coisa aos dois vizinhos, depois fez gestos mostrando a sentena:   os quatro rus precisavam levar uma boa surra para aprenderem 
que roubar do prximo  crime. No era preciso uma surra muito grande porque h crimes piores, mas os quatro ladrezinhos mereciam uma surra bem regular
        Henrique percebeu tudo isso quando viu os quatro macaquinhos esconderem as cabeas entre os braos, muito assustados. O advogado da defesa, aproximou-se 
deles como a dar-lhes coragem enquanto o da acusao dependurou-se pela cauda para assistir melhor ao espetculo.
        O juiz deu a ordem; ento os doze jurados desceram do galho, pegaram os quatro rus e os levaram para baixo; comeou a pancadaria.
        A assistncia guinchava numa torcida danada; uns aprovaram o juiz, outros eram contra, de modo que se formaram dois partidos. As quatro vtimas apanhavam 
com cip e o cip zunia no ar: plaf! plaf! plaf! 
        Alguns tapavam os ouvidos para no ouvir os gritos dos infelizes condenados, deviam ser os parentes ou amigos dos rus. Outros pareciam bater palmas de contentamento.
        O advogado da acusao estava to satisfeito que se balanava de um lado para outro, seguro apenas pela ponta do rabo; achava que a sova era bem merecida.
        O juiz esperava o resultado sentado no mesmo lugar entre os dois companheiros mais velhos, estava to acostumado com essas cenas que nem olhava. Distraa-se 
catando pulgas no plo com toda calma.
        No cho, onde os quatro macaquinhos apanhavam, via-se apenas uma mistura de rabos, patas, cabeas, caretas, guinchos, mos pretas, no se sabia mais quem 
estava apanhando, nem quem estava surrando.
        Afinal veio a ordem de cessar o castigo; o juiz fez sinal com a mo e todos olharam para ele. Ento os quatro surrados ficaram em liberdade e foram imediatamente 
socorridos pelos parentes aflitos; os quatro se lambiam para se consolar.
        A assistncia comeou a dispersar-se de galho em galho, ainda comentando o acontecimento do dia. O juiz e os companheiros sentaram-se no cho e comearam 
a comer as frutas, causa de tanta infelicidade. Os dois advogados tambm deixaram o local, partindo cada um para um lado.
        Amparados pelos pais inconsolveis, os quatro que haviam levado a surra, foram embora coando as partes doloridas, enquanto o monte de frutas diminua a 
olhos vistos, diante do juiz e dos companheiros. Para se divertirem, jogavam os caroos de mangas e as cascas de maracuj nas costas dos que iam embora; estes no 
reclamavam porque o juiz era respeitado.
        Nesse ponto, Henrique que estivera inteiramente absorvido por essa cena extraordinria, procurou seus companheiros e no os encontrou. Estava s; com certeza 
os que o haviam trazido tinham descido para tomar parte no barulho. Resolveu ento fugir. Quando encontraria melhor ocasio? Desceu sorrateiramente da rvore e pisou 
o cho coberto de folhas midas. Essa parte da floresta era muito sombria, pois nela o sol raramente entrava.
        Ele foi andando passo a passo, um pouco nervoso, um tanto ressabiado. De vez em quando olhava para trs e espiava o juiz que continuava a devorar as frutas, 
auxiliado pelos companheiros e pelo advogado da acusao que voltara, com certeza a convite do juiz.
        De repente pan! um caroo de jatai na cabea de um macaco que ficara para trs, o bichinho coava a parte atacada e lambia o po-de-l-de-mico.
        Henrique deu mais alguns passos, todo esperanoso; quando j estava longe da rvore gigante, certo de que estava livre, sentiu um rabo escuro e peludo enrolar-se 
na sua perna; era o "perna quebrada" que o havia trazido para assistir ao jri. 
        Henrique tentou resistir e correr, procurando desenlear-se da cauda peluda; conseguiu desenrolar o rabo preto e dar mais uns passos.  Qual!  Outros rabos 
peludos apareceram por todos os lados e ele foi envolvido num instante pela macacada alvoroada.
        Ele percebeu que, se resistisse mais, apanharia com cip, como vira fazerem aos quatro condenados; ento resolveu acompanhar docemente o "perna quebrada". 
Assim, voltou para a caverna de Simo.
        Ainda olhou para trs e viu o juiz atirando cascas de frutas nos que estavam atrasados; recebeu tambm um caroo de po-de-l-de-mico bem no meio da cabea. 
Henrique sentiu uma dorzinha e quis voltar para jogar um caroo no juiz, mas os companheiros puxaram-no para diante.
        Sentiu-se desanimar dessa vez. Como poderia fugir, vigiado por toda a bicharada? Quando veria Eduardo novamente?
        Simo esperava-o com o jantar preparado; nesse dia havia ovos de sabi com fatias de po. Henrique dilatou os olhos de espanto:
        - Onde  que voc arranjou este po? Foi voc que fez?   Com o qu?
        Simo achou graa e respondeu:
        - Este po  tirado de uma rvore chamada fruta-po;  uma planta nativa das ilhas do Pacfico.
        Henrique comeu mais um pedao, cheio de admirao:
        - Ento o senhor esteve l nessas ilhas?
        - Estive h muitos anos; consegui transplantar um p de fruta-po aqui na ilha infelizmente s uma planta. No me chame de senhor.
        Henrique quase no acreditava no que ouvia. Perguntou:
        - E como  que se prepara, Simo?  s colher e comer?
        - Pe-se a fruta no forno e em poucos instantes ela fica como po.   Coma mais um pedao.
        Henrique ficou pensando que Simo era meio mgico; tiveram como sobremesa mel de abelhas e mangas deliciosas. Henrique contou ento o espetculo a que assistira; 
Simo sorriu e disse que no fundo das florestas acontecem coisas extraordinrias, to extraordinrias que os homens das cidades nem podem imaginar. E que certamente 
ele iria presenciar outras coisas estupendas e dignas de admirao.

HENRIQUE CONTINUA PRISIONEIRO

        No dia seguinte toda a ilha estava silenciosa. Simo convidou Henrique para uma pescaria na beira do rio; foram de manh bem cedo levando iscas para os peixes 
e almoo para ambos.
        Os animais que viviam n gruta ficaram entretidos em seus afazeres; os micos estavam passeando, Boni fazendo visitas aos amigos, a tartaruga na beira do 
lago tomando banho; era muito asseada e tomava vrios banhos por dia. A coruja, o morcego e a oncinha estavam dormindo depois de terem se divertido durante a noite 
inteira.
        Henrique seguiu Simo; essa parte do rio era desconhecida para Henrique; ele no sabia onde ficava, nem se era longe do lugar onde Eduardo e ele haviam posto 
o p na ilha pela primeira vez.
        Sentia s vezes tantas saudades do irmo que nesse dia resolveu falar com Simo; estavam sentados um perto do outro; de sbito Henrique perguntou:
        - Simo, este lugar fica longe daquele onde voc me encontrou?
        - Fica, disse Simo.
        - Muito longe?
        - Muito longe.
        Ficaram quietos um instante e Simo pegou um grande peixe que tirou do anzol e colocou na cesta de cip que ele havia tecido, Henrique resolveu continuar:
        - Bonito peixe.   Simo, voc no tem parentes?
        - No tenho ningum.
        - Ento  por isso que voc no se importa de viver aqui sozinho.
        Simo no respondeu; Henrique sentiu um movimento no anzol; puxou-o e viu um peixe brilhante pulando no ar; tirou-o e colocou-o na cesta. Jogou novamente 
o anzol e perguntou:
        - Voc no me deixa mais voltar para casa?
        - No sei, respondeu Simo.
        - Por que no quer me deixar voltar? 
        Simo olhou aborrecido para Henrique:
        - Porque a primeira coisa que voc vai fazer ao chegar l  contar que aqui existe um homem barbudo que leva uma vida muito esquisita no meio da bicharada. 
E toda a gente vir aqui me procurar ou me caar como se eu fosse um animal feroz e adeus minha tranqilidade. No terei mais sossego.
        Henrique ficou de p e at deixou escapar um peixinho:
        - Se o senhor no quiser que eu conte, no contarei nada, Simo. Se  por isso, pode ficar descansado. Juro ao senhor que nunca contarei nada a pessoa alguma, 
nem aos meus pais, nem ao meu irmo Eduardo.
        Simo deu uma risada esquisita:,
        - Olhe, menino. J vivi entre os homens e sei que eles juram falso. Muitas vezes fui enganado por eles, agora no me enganam mais. No creio em sua palavra. 
J disse que no precisa me chamar de senhor.
        Henrique fez cara de choro:
        - Mas eu juro, Simo. Pode crer em mim; eu juro que no contarei nada. Digo a todos que fiquei perdido na ilha e me alimentei de razes e frutas, mas nada 
direi sobre voc, nem sobre a caverna...
        Continuaram a pescar e no falaram mais; Henrique ficou pensando de que maneira poderia convencer Simo
        Em ltimo caso, ele fugiria, havia de fugir de qualquer jeito.   De repente, Simo disse:
        - Meu anzol quebrou-se. Voc  capaz de voltar sozinho  gruta e trazer mais anzis? Esto dentro de uma cestinha.
        Henrique confirmou com a cabea; Simo explicou bem o "caminho, ele levantou-se e foi. Caminhou em direo  caverna com uma idia fixa na cabea: fugir. 
Quando poderia encontrar melhor ocasio do que aquela? Nem o papagaio Boni, nem o veado Lucas, nem os micos careteiros, nem a oncinha, ningum estava a segui-lo.
        Resolveu ir diretamente  caverna, quem sabe Simo o estava seguindo. L arranjaria alguma coisa para comer no caminho e tomaria outro rumo. Sabia de que 
lado devia seguir para encontrar a prainha, tinha certeza de que a encontraria. Levaria tambm a machadinha de pedra que vira dependurada na parede da gruta; Simo 
tinha vrias iguais quela.
        Animado com essa idia, dirigiu-se diretamente  caverna; de quando em quando parava para escutar se algum o estava acompanhando; no percebeu nada. Nas 
proximidades da gruta, parou outra vez.   S silncio.
        Contornou a caverna, passou pelo lago onde tomavam banho e viu a tartaruga deitada na margem; ela nem olhou.
        Com o corao batendo fortemente, Henrique subiu a escadinha de cip e espreitou para dentro da caverna; viu a coruja cochilando num pau que fora posto l 
para ela e o morcego dormindo profundamente dependurado no teto. Sem perder tempo, ele vestiu o palet que estava a num canto, pois desde que chegara no o usara 
mais; encheu os bolsos de ameixas, bebeu a bebida que Simo fazia de frutas fermentadas e dizia que era fortificante, tomou a machadinha e amarrou-a  cintura. Pegou 
tambm uma vasilha de madeira que servia para carregar gua, olhou  volta como se despedisse e saiu sorrateiramente Desceu a escada olhando para os lados e tomou 
rumo da floresta. 
        Foi andando na direo onde devia ficar a prainha, mas tinha um medo louco de se enganar. De vez em quando tirava uma ameixa amarela do bolso e comia. Foi 
andando... Estaria certo? Reparou que o sol estava bem em cima da sua cabea, devia ser meio-dia: aprendera com Simo a conhecer as horas pelo rumo do sol. Sentiu 
que o solo estava muito mido, na vspera havia chovido; de repente escorregou e para no cair, segurou-se a uma planta que havia ao lado; foi como se recebesse 
golpes ou navalhadas nas mos; ficou todo ferido. Que planta seria aquela? Nunca encontrara coisa semelhante.
        Parou um pouco para descansar; estava suando pois j se habituara a no usar palet e agora estranhava o calor e o peso nas costas. Tomou uns goles de gua 
e comeu ameixas, encostado no tronco de uma rvore. Viu as mos cheias de sinais vermelhos e doloridos; parecia ter recebido, navalhadas.
        Nesse instante ouviu um grito, no percebeu se era de papagaio ou outro animal; outro grito respondeu mais perto. Seu corao deu um salto; estavam  sua 
procura. Simo contara uma vez que havia uma espcie de telegrafia sem fio na ilha. Um animal avisava outro do perigo, qualquer que ele fosse, e todos se preveniam. 
Trmulo, Henrique deitou-se no cho, cobriu-se com uns galhos que cortou rapidamente com a machadinha pois j aprendera a lidar com ela e ficou imvel, esperando.
        Ouviu mais gritos, uns muito longe, outros mais prximos; estavam em comunicao. De repente sentiu uma bicada forte nas costas, outra no pescoo; olhou 
e viu formigas negras que avanavam sobre seu corpo. Horrorizado, deu um pulo e esfregou-se todo, esmagando formigas por todos os lados. Nas partes onde elas haviam 
mordido, nos braos, nas pernas, no pescoo a pele ficou inflamada e muito dolorida.
        Tirou o palet, procurou mais formigas, matou todas as que encontrou e teve vontade de chorar. Tivera to pouca sorte que se deitara justamente ao lado de 
um formigueiro. 
        Agora iam descobri-lo no mesmo instante; caminhou ao acaso sentindo dores pelo corpo e sem saber mais o rumo a tomar. Estava desorientado e triste. Como 
encontrar seu irmo Eduardo? No havia mais esperana de sair da ilha; estava vigiado e Simo nunca permitiria. O que fazer?





Nesse instante ouviu um grito.   

Seu corao deu um salto; estavam  sua procura.










        Ouviu gritos prximos; olhou para cima e procurou algum conhecido entre as rvores. Seria algum dos Cinco? Desejou nesse instante voltar para a caverna e 
pedir um remdio para suas dores do corpo e para as navalhadas das mos.   Simo tinha remdio para tudo.
        Ouviu um barulhinho nas folhas, bem sobre sua cabea; olhou. L estavam Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco espiando e fazendo caretas para ele. Pareciam rir do rosto 
desanimado de Henrique. 
        Um fez sinal que o acompanhasse, Henrique obedeceu. Outros dois desceram e mostraram a Henrique as frutas que traziam, eram bananas-de-mico. Fazendo piruetas, 
subindo nos galhos, balanando-se um instante e atirando-se para a rvore da frente, os micos da caverna foram mostrando o caminho a Henrique.
        A inflamao das mordidas das formigas doa cada vez mais e Henrique sentia dor de cabea e mal-estar.
        Quando chegaram ao planalto, Henrique avistou Simo de p na entrada da gruta, um ar severo. Sem dizer nada, mandou-o subir a escadinha de cip; l dentro, 
examinou as mos doloridas de Henrique e disse que isso devia ter sido causado por uma rvore chamada navalha-de-macaco que cortava mesmo como navalha. Passou uma 
pomada sobre as mos, depois examinou as mordidas das formigas negras, passou um blsamo sobre elas, deu uma bebida a Henrique, depois disse:
        - Eu mandei voc buscar o anzol s para experimentar; tinha certeza de que tentaria a fuga. J avisei e torno a avisar que ningum deixar a ilha sem minha 
ordem,  intil tentar fugir. A telegrafia sem fio trabalha noite e dia,  intil qualquer tentativa para iludi-la.
        Henrique baixou a cabea sem nada dizer;  hora do jantar, j se sentia muito melhor das mordidas e das navalhadas. Comeu peixe, pois estava com muita fome; 
depois Simo ofereceu-lhe uma espcie de doce de coco que Henrique saboreou com prazer. 
        Ento, Simo explicou que aquele coco no era propriamente coco; tinha quase o mesmo gosto, mas era tirado do tronco do jaracati. O jaracati era uma rvore 
grande, mas oca por dentro, tinha s casca; dentro continha uma polpa com gosto de coco, e as suas frutas eram comidas pelos macacos e micos do mato; a fruta era 
chamada "banana-de-mico". 
        Um--Dois-Trs-Quatro-Cinco devoravam as bananas, careteando para Henrique.
        Depois do jantar Henrique resolveu pedir desculpas a Simo do que havia feito; explicou que s vezes sentia muitas saudades dos seus, por isso tentara a 
fuga. Elogiou o jantar e a sobremesa dizendo que Simo cozinhava que era uma beleza.
        Meia hora depois j no sentia dores no corpo. Agradeceu a Simo o blsamo milagroso, assim como a pomada. Simo disse que rara  a rvore que no faz benefcios 
 humanidade; de cada uma delas tira-se ou uma fruta ou uma flor ou um remdio ou um blsamo para alimentar ou curar os homens.

MORTE NA ILHA

        SIMO costumava destinar cada dia da semana  realizao de uma determinada tarefa; o dia seguinte ao da tentativa de fuga de Henrique, era dia de tecer. 
Simo tecia uma espcie de sandlias feitas com cip-imb, malevel como couro; com esse mesmo cip, tecia certas roupas para seu uso, cestos para carregar frutas, 
peixes, etc. Em pouco tempo, Henrique aprendeu a tecer; teceu para si umas sandlias muito cmodas e roupas para forrar sua cama.        
        Os Cinco queriam tecer tambm, mas no podiam aprender; ento ficaram na frente de Henrique imitando todos os seus gestos, o que provocou grandes risadas. 
Quando viram que no conseguiam nada, foram buscar os "pentes-de-macaco" para se pentear; cada um tinha um pente e o guardava cuidadosamente num canto da caverna,
        Esse pente era uma fava grande, espinhada, tirada de uma certa rvore; quando no tinham o que fazer, os Cinco iam se pentear; e quando cansavam de se pentear, 
iam se catar. Henrique no sabia se eram pulgas o que eles catavam uns nos outros, entre caretas e guinchos.
        Enquanto teciam, a oncinha chegou; farejou o ar e deitou-se aos ps de Simo como se fosse um gato. Simo contou a histria da oncinha; encontrara-a rodando 
rio abaixo, ferida no pescoo. Tratara dela, curara o ferimento e ela nunca mais se fora; ficara na ilha vivendo com Simo e os outros animais em ntima camaradagem.
        Nesse dia ao almoo tiveram carne de capivara com abbora e como sobremesa mandioca cozida adoada com mel. A batata-doce da ilha era to doce como se tivesse 
acar e Henrique comia-a quase todos os dias. Depois do almoo, Simo olhou o cu dizendo:
        - Duas horas j, vamos continuar nosso trabalho. 
        J  estava  comeando   a   anoitecer   quando   pararam para tomar gua de coco verde; ento viram o veado Lucas chegar correndo, subir para o planalto 
e encostar-se s pernas de Simo quase sem flego. Simo admirou-se e perguntou como se o veado pudesse responder:
        - O que h, Lucas?   Aconteceu alguma coisa?
        E passou a mo pela testa do animal; Lucas no sabia falar por meio de palavras, mas fez gestos mostrando a Simo o que ele queria e foi como se tivesse 
falado. Caminhou para o lado da mata, voltou outra vez e olhou Simo; encostou o focinho na mo do homem como que o convidando a acompanh-lo. Simo compreendeu; 
disse a Henrique que guardasse os trabalhos que estavam fazendo e se aprontasse, pois com certeza iriam andar a noite toda. Entraram na caverna e prepararam-se para 
a longa caminhada.   Henrique perguntou:
        - O que foi, Simo?   O que aconteceu com Lucas?
        - No sei ao certo, mas alguma coisa houve, seno Lucas no viria me chamar; algum dos companheiros dele est doente ou ferido, no sei ainda. Voc no viu 
como ele pede para que eu o acompanhe?   Vamos ver o que .
        Dizendo isso, Simo preparou paus resinosos que serviriam de tochas na escurido da mata e arranjou a cesta com farnel e gua pura. Depois os dois puseram 
as machadinhas na cintura; antes de sair, Simo colocou remdios feitos por ele mesmo numa caixa de madeira, talvez esses remdios fossem precisos.
        Enquanto isso, Lucas esperava do lado de fora andando  de  um  lado  para  outro,  muito  aflito.   Algumas vezes punha a cabea na entrada da gruta e olhava 
para ver se Simo estava pronto.
        Afinal os trs deixaram a caverna e encaminharam-se para a mata; Boni foi com eles enquanto a oncinha ficava tomando conta da morada de Simo. 
        Andaram durante umas duas horas sem parar; Lucas ia na frente mostrando o caminho, depois vinha Simo e Henrique um pouco mais atrs. Boni ia s vezes no 
ombro de Henrique ou de Simo muito bem refestelado. s vezes conversava com Simo como dois velhos amigos; Henrique no podia deixar de rir quando Boni avisava 
que o caminho estava ruim.
        - Cuidado, Simo, voc cai!   Olhe o buraco! 
        Simo respondia:
        - Eu tenho cuidado, Boni.   No se incomode. 
        s vezes Boni prevenia Henrique:
        - Rique!  Rique!  No v por esse lado.  Tem cobra. 
        Boni tinha muito medo de cobra; Simo contara que uma vez uma cobra quase matara o papagaio; ele estava distrado num galho de rvore, a cobra veio de manso 
e j ia dar o bote quando Simo deu um grito avisando; foi s o tempo de Boni voar e assim escapou da bicha. Desde esse dia, Boni ficara medroso, pois conhecia o 
perigo; quando via alguma coisa se mexendo no cho, ficava com as penas alvoroadas e dava gritos de medo. s vezes no era nada, ou apenas um serelepe procurando 
frutas.
        Depois de duas horas de marcha, Simo parou para comerem alguma coisa; aps terem comido, beberam gua e continuaram. A noite estava cerrada; ouvia-se o 
cricri dos grilos nas moitas, um ou outro grito de animal vindo da folhagem mais fechada. De repente Lucas parou farejando o ar; olhou  direita e  esquerda, com 
ar receoso. Simo perguntou baixinho:
        - O que h, Lucas?   Est ouvindo alguma coisa?
        Pararam todos e ficaram escutando. No se ouvia nada, mas Simo percebeu que o veado estava com medo; resolveu acender uma tocha e procurar o que estava 
assustando Lucas. 
        Abriu sem fazer o menor rudo a caixa de madeira onde guardava os remdios e tambm os pauzinhos que ele chamava de fsforo; eram uns paus pequenos e to 
secos que ao esfregar com fora um no outro, pegavam fogo sem demora. Alis, Simo estava to perito nisso que num instante aparecia uma fasca, como se fosse mesmo 
um fsforo que se acendesse.
        Como Simo era homem previdente e sabia que no tinha outros recursos seno os que ele mesmo arranjava, trazia sempre uma brasa na sua caixinha. Num instante 
apareceu uma luzinha e Simo acendeu uma das tochas que Henrique levava entre as mos. Olharam  volta examinando o lugar onde estavam; era mato cerrado e mido; 
havia cips tranados entre uma rvore e outra.
        Os olhos de Lucas estavam assustados e fixos nos cips; Boni ficou com as penas assanhadas e com os olhinhos redondos procurava alguma coisa no cho. Seriam 
os cips que teriam assustado Lucas?
        Simo levantou a machadinha e ia cortar o cip mais grosso que havia  sua frente, quando ouviu um grito aflito de Boni; Boni estava no ombro de Henrique 
e gritara de medo. Simo ficou parado com a machadinha no ar e procurou Lucas; este tremia encostado a um tronco de rvore. 
        Henrique com a tocha acima da cabea, iluminava a cena e disse baixinho a Simo que no vira nada a no ser os cips tranados acima da cabea dos companheiros. 
O que seria?
        A resina da tocha crepitava de leve; no havia vento nesse lugar e tudo estava parado, imvel; at a chama da tocha no se movia. Simo levantou novamente 
o brao e deu a machadada nos cips; eles todos se movimentaram e um deles, o mais grosso, ficou dependurado no espao sem parar de mexer; Simo recuou, horrorizado 
e empurrou
        Henrique para mais longe; Boni caiu no cho dando gritos de terror; bateu as asas, assustado, sem poder falar. Depois gritou com a vozinha fina:
        - Cuidado, Simo.   cobra.
        E desta vez, era mesmo. Na frente deles, dependurada pela cauda, uma cobra enorme cor de cip procurava dar o bote; o que Simo e Henrique julgavam ser cip, 
era cobra. Ela fora ferida, e desesperada, procurava morder os que estavam mais prximos. 
        Todos recuaram, mas Simo voltou com a machadinha e deu-lhe outro golpe; ela foi cortada pelo meio. Caiu ao cho em dois pedaos que ainda ficaram fazendo 
movimentos. Lucas, que havia recuado, voltou para olhar, ainda trmulo de susto. Boni, quase morto de medo, fechava os olhos com fora sem coragem de olhar.   Simo 
apenas disse:
        - Vamos continuar a marcha. Para a frente, Lucas. 






Todos recuaram, mas Simo voltou com a machadinha e deu-lhe outro golpe; ela foi cortada pelo meio.



        




        



        Henrique assistira a toda a cena e admirara muito a coragem de Simo; mas no disse nada e continuou a andar atrs dele; ia agora com a tocha acesa para 
iluminar a mata.   Mais adiante, falou:
        - Simo, voc no tem medo de nada. Admiro sua coragem; eu no seria capaz de fazer o que voc fez.
        Simo sorriu e respondeu:        
        - O que eu havia de fazer, Henrique? Sair correndo e deixar a cobra venenosa no meio dos cips? A gente s vezes aprende a ser valente.
        Henrique respondeu:
        - No, creio que voc no aprendeu, nasceu valente. Eu queria ser assim...
        - Se voc vivesse sempre na mata, seria assim. 
        Caminharam mais duas horas, afinal pararam para tomar gua numa grota; desceram cautelosamente por trs de uma grande pedra, e chegaram a uma nascente que 
havia l embaixo entre avencas e samambaias; beberam a gua purssima e Henrique disse:
        - Ih!   Est to fria que parece gelada.
        Boni tambm quis beber, mas no achou graa; Lucas bebeu em grandes goles. Subiram novamente o caminho que estava bem trilhado por animais que costumavam 
ir beber na nascente. Henrique sentia-se cansado e de novo com fome, mas no se queixava para no interromper a marcha.
        Chegaram afinal a um lugar muito limpo no meio da floresta; ali no havia cips, nem folhagem cerrada; divisava-se longe atravs dos troncos das rvores. 
Era um bosque de pinheiros, com o cho forrado de folhas secas; havia entre as rvores uma plantinha rasteira que dava uma florzinha azul muito mimosa.
        Viram ento uma cena que Henrique jamais pde esquecer: dois veados grandes rodeavam uma veadinha ferida na cabea. Lucas que caminhava sempre na frente 
deu dois pulos e aproximou-se do grupo; parecia querer mostrar a Simo o que ele devia fazer. 
        Simo olhou a veadinha e pediu a Henrique para iluminar o lugar com a tocha; acendeu outra tocha que ele mesmo colocou no cho e ajoelhando-se ao lado do 
animal, comeou a examinar a ferida. Era um ferimento de bala no meio da cabea; no havia salvao, a veadinha ia morrer. O sangue corria sem parar.
        Simo abriu a caixa de madeira, tirou o blsamo que derramou sobre o ferimento, depois procurou extrair a bala, mas no a encontrou, pois o ferimento era 
muito profundo. Ficou amparando a cabea do animal agonizante; olhou os veados que pareciam os pais da veadinha e viu lgrimas nos olhos deles; Lucas tambm chorava. 
Eram lgrimas verdadeiras que corriam dos olhos dos animais; pareciam sentidssimos com a morte da veadinha.
        Henrique nunca vira um animal chorar e ficou muito admirado olhando a cena; Simo murmurou:
        - Os caadores no tm corao. Matam um pobre animal inofensivo pelo prazer de matar. Veja voc: matar um bichinho to inocente, to bonito, to delicado. 
Para qu? Se fosse para saciar a fome, ainda bem, mas  para se divertir que eles matam. Matam por crueldade. Querem apostar para ver quem mata melhor, quem mata 
primeiro.
        E Simo ficou de cabea baixa olhando a veadinha que j estava morrendo.  Henrique perguntou:
        - Foram caadores que fizeram isso?
        - Quem mais se no eles? Matam os pobres animais s por divertimento; se gostam tanto de matar assim, deviam ir para frica caar lees ou ento caar tigres 
na ndia. Isso sim, seria medir foras. Mas matar um animalzinho destes que no faz mal a ningum?  crueldade. Nem gostam da carne de veado, acham-na muito seca, 
do para os ces. Mas matam, matam sempre. Por isso vivo sozinho, sou mais feliz assim. E olhe uma coisa, Henrique, os homens sofrem e so infelizes porque so maus. 
A maldade s pode trazer infelicidade.
        Levantou-se e fez sinal a Henrique indicando que a veadinha j estava morta; Lucas e os outros dois veados aproximaram-se e comearam a lamber a cabea do 
animal bem no lugar da ferida, de onde continuava a escorrer sangue.
Henrique teve vontade de chorar; como  que simples animais compreendiam que a companheira estava morta? Perguntou a Simo:
        - Eles choram, Simo? Parecem gente chorando. Nunca vi isso.
        - Choram, disse Simo tristemente. Muitos animais choram assim como gente.
        Henrique afastou-se para um lado e sentando-se num tronco de rvore, ficou pensativo. Boni refestelou-se ao seu lado, convencido de que prestara um grande 
servio vindo tambm: Simo sentado de um lado, esperava o dia clarear. Logo os primeiros raios de sol atravessaram os pinheiros e iluminaram a cena; Henrique que 
cochilara um pouquinho, acordou com uma bicada de Boni no seu nariz.  Boni tinha esse costume:  acordar os outros com bicadas no nariz.
        Henrique olhou  volta e ficou impressionado com o que viu: havia mais veados  volta da veadinha, talvez uns dez. E todos pareciam sensibilizados com o 
que acontecera. Depois ouviu um barulhinho nas rvores e olhou; viu serelepes, macacos, aves de vrias espcies que olhavam para baixo com ar entristecido.   Perguntou 
a Simo:
        - Eles vieram por causa da veadinha?
        - Penso que sim, respondeu Simo. Todos se compreendem na floresta.
        Henrique tornou a perguntar:
        - Simo, estamos no reino dos veados?
        - Sim, disse Simo. Quase todos moram neste bosque de pinheiros; s Lucas  que gosta de andar pela mata.
        Henrique estava cada vez mais admirado:
        - Ento h homens caando na ilha? Pois mataram a veadinha.
        - No, disse Simo. Esta veadinha foi ferida numa das margens do rio; naturalmente os caadores atiraram e quando ela se viu ferida nadou para c; veio morrer 
no lugar onde nasceu.
        - E o que ser que ela foi fazer l na margem?
        - Ah! Muitos animais s vezes atravessam o rio deste lado que  mais estreito e vo procurar coisas para comer l na margem. Com certeza foi isso que aconteceu; 
so animais bons que ainda no conhecem a maldade dos homens.
        E tudo o que Henrique presenciou depois, mais parecia sonho que realidade. Sabis cantavam sem cessai entre os pinheiros como a chorar a morte da  veadinha; 
baitacas, araras e papagaios desceram ao solo e ficaram ao redor dos veados, todos cochichando entre si como se comentassem o triste acontecimento. At os pinheiros 
pareciam sentidos:  o vento comeou a passar entre eles e os galhos secos foram caindo em sinal de tristeza; o solo ficou forrado de galhos e folhas.
        Henrique sentia admirao cada vez maior; seria possvel  o que estava vendo? Ou seria sonho? Viu os veados mais velhos arrastarem o corpo da veadinha para 
a margem do rio. S ento reparou que o rio corria ali perto do bosque de pinheiros. Com os focinhos, eles empurraram o corpo do animal at jog-lo no rio e as guas 
do Paraba levaram a veadinha para longe.
        Voltando para o interior do bosque, Henrique viu Simo fechando a caixa de madeira e o veado Lucas ao seu lado; todos os outros animais haviam desaparecido 
s o vento sacudia os galhos das rvores.   Simo murmurou:
        - Pobre Lucas!
        E Boni que era muito novidadeiro, respondeu trs vezes com a voz esganiada:
        - Pobre Lucas!   Pobre Lucas!   Pobre Lucas!
        Voltaram para a caverna onde chegaram  tarde, famintos e cansados; Lucas tambm voltou com eles. Deitou-se num canto da gruta e ficou quieto, como se dormisse. 
Simo preparou uma fritada de ovos e como sobremesa tiveram mangas que os Cinco haviam trazido aquela tarde do pomar.

A VOLTA

        CORRERAM dois dias sem novidade. De manh nadavam no lago, depois iam pescar ou tratar da horta. Quando no havia tarefa determinada por Simo, Henrique 
aprendia a subir nas rvores com Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco; pulava de uma rvore a outra e trepava pelos cips at chegar ao topo, sem medo algum. Passava a tarde 
brincando com os animais e assim se fazia amigo de todos: at coava a barriga da oncinha e ela, contente, ronronava ento como gato, os olhos semicerrados.
        Boni acompanhava-o por toda a parte e dizia o nome de Henrique cortado pelo meio. Grilava: Rique! Rique! com toda a fora.
        Uma tarde, Henrique estava muito triste sentado na beira do lago quando Simo aproximou-se e perguntou:
        - Por que est triste, Henrique?
        Henrique ficou muito perturbado e resolveu falar a verdade:
        - Penso nos meus pais e no meu irmo Eduardo. Tenho saudades deles; lembro-me tambm dos padrinhos que moram em Taubat e devem estar pensando que eu morri. 
Por isso fico triste s vezes. Mas gosto muito desta vida, muito mesmo.
        Simo ficou pensativo, depois respondeu:
        - Est bem, Henrique, gostei da sua franqueza; e sei que voc precisa mesmo voltar.   Quer voltai?
        - Quero, respondeu Henrique  imediatamente.
        - Muito bem. Amanh levo voc at o meio do caminho e ensino de que lado fica a prainha e voc ir at l.  Est contente?
        - Estou sim.   Muito obrigado. Simo continuou:
        - Quando perguntarem onde voc esteve, voc dir que esteve com o homem barbudo e misterioso que mora na Ilha Perdida. E tenho certeza de que ningum vai 
acreditar em voc.
        Simo deu uma risada e Henrique respondeu:
        - Pode ficar certo, Simo, de que nunca esquecerei sua bondade e a maneira como voc trata os animais. Aprendi com voc essa grande virtude.
        Simo tornou a falar:
        - Escute uma verdade, Henrique: Quanto mais culto um povo, melhor ele sabe tratar os inferiores e os animais. Isso demonstra grande cultura e voc nunca 
deve esquecer.
        - Nunca esquecerei, Simo.   Pode ficar certo.
         noite, Henrique quase no pde dormir; pensava na volta. Eduardo estaria ainda na prainha? E se no estivesse? De que modo voltaria  fazenda dos padrinhos?
        No dia seguinte cedo, preparou-se para partir, conforme Simo determinara; Simo queria que ele voltasse como viera, sem levar nada da caverna a no ser 
alguma coisa para comer no caminho. Queria que fosse com os mesmos sapatos e as mesmas roupas.  Henrique perguntou:
        - No me deixa levar nem a machadinha como lembrana?
        - Nada.
        - Simo, deixa-me levar ao menos as sandlias que teci...
        - No, respondeu Simo.
        Deu almoo para Henrique e alguma fruta para ele levar; depois de tudo pronto, disse:
        - Ento vamos. Acompanho voc at o fim desta primeira floresta.
        Antes de deixar a gruta, Henrique despediu-se dos seus habitantes; coou a cabea da oncinha, disse um adeus  coruja, ao morcego,  tartaruga, a Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco.

        Deixou a caverna com o corao triste; Boni quis acompanh-lo juntamente com Simo. No pde despedir--se de Lucas que estava ausente desde o dia anterior. 
Partiram. Simo caminhava na frente, depois Henrique; Boni como sempre, ora no ombro de um, ora de outro. Durante o percurso, Henrique perguntou:
        - Simo, quando eu estiver entre os meus outra vez, posso contar que estive aqui? Posso contar tudo o que vi ou no quer que conte nada?
        Simo parou um pouco para refletir, depois disse:
        - Henrique, estive pensando durante esta noite. Acho que voc pode contar tudo o que viu porque ningum acreditar; vo dar risada das suas aventuras e vo 
dizer que voc inventou tudo isso, vai ver.
         Na frente dele, Henrique tornou a falar: 
        - Mas, Simo, as pessoas que vivem no mundo civilizado so muito curiosas; so capazes de organizar uma expedio e vir aqui  ilha para saber se falei ou 
no a verdade.
        - Deixa que venham, respondeu Simo, ningum me descobrir. Sei esconder-me muito bem, assim como meus bichos.   Tenho certeza de que no me encontraro.
        - Muito bem.   Farei como voc mandou, Simo. 
        Continuaram a andar por mais algum tempo no meio da floresta; de repente, Simo parou e disse:
        - Henrique, vamos nos separar aqui. Indo direito por este lado, veja bem, voc vai dar na prainha, no demora nem meia hora de marcha. Adeus e seja feliz, 
Quero ainda fazer um pedido a voc, um pedido muito srio: Oua bem, nunca maltrate os animais; seja sempre bom e caridoso para com eles, principalmente para esses 
que vivem conosco e nos prestam servios. Nunca os maltrate.   Ouviu bem?
        - Ouvi, respondeu Henrique.        
        Henrique e Simo apertaram-se as mos fortemente;
        Henrique disse:        
        - Obrigado, Simo. Nunca esquecerei o quanto voc foi bom para mim; se algum dia eu puder voltar, voltarei. Voc permite que eu volte para uma visita algum 
dia?
        - Pode voltar, mas sozinho. Quando encontrei voc na prainha, pensei que iria ter um companheiro da em diante, mas vi voc com tantas saudades da sua gente 
que resolvi fazer voc voltar.  Seja feliz.
        - Uma coisa ainda, Simo. Se por acaso meu irmo Eduardo no estiver mais na prainha, o que farei? Ficarei sozinho at vir socorro? E se no vier nunca? 
Penso que no saberei voltar para a caverna.
        Simo sorriu:
        - Seu irmo Eduardo ainda est na prainha tenho certeza.   Pode ir descansado.
        Henrique perguntou:
        - Ento   a   telegrafia   sem   fio   andou   trabalhando muito?
        - Trabalha sempre, respondeu Simo. Sei tudo o que se passa nos arredores.   Seja feliz.   Adeus!
        Simo voltou as costas e entrou no mato outra vez sem dizer uma palavra mais. Henrique beijou a cabecinha de Boni:
        - Adeus, Boni.   Volte com Simo. 
        Boni compreendeu; gritou primeiro:
        - Que pressa  essa, Simo?   Espere um pouco! - Falou as mesmas palavras que Simo falava para ele quando estavam se aprontando para percorrer a floresta. 
Depois Boni bateu as asas e voltou para o ombro de Simo. De l gritou bem alto:
        - Rique!   Rique!   Adeus!
        Henrique sentiu vontade de chorar, falou alto com a voz comovida:
        - Adeus, Simo, e obrigado.   Adeus, Boni!
        No ouviu resposta, j estavam longe. Caminhou na direo que Simo indicara e foi  procura da prainha. Vivera todos esses dias uma to grande aventura 
que se contasse ningum acreditaria, tinha certeza.
        Andou mais de meia hora sem encontrar nada. Comeu a ltima fruta que trouxera e continuou a caminhar pelo mato adentro. Comeou a ouvir o barulho do rio. 
Resolveu gritar:
        - Eduardo!   Eduardo!
        Nada de resposta. Estava cansadssimo, pois caminhava desde muito cedo e j devia ser tarde. Onde estaria a prainha? Resolveu sentar-se um pouco e descansar; 
recostou-se no tronco de uma rvore grossa e ficou quieto, com a cabea encostada na rvore. Que horas seriam? Sem sentir, cochilou; acordou assustado, parece que 
ouvira um barulhinho. Seria sonho? Tornou a recostar a cabea e dormiu profundamente. No sabe quanto tempo dormiu assim; acordou com um frio esquisito no rosto 
e uma voz chamando:
        - Henrique!   Meus Deus!    Henrique mesmo!
        Pensou que era Boni; ia dizer: "Boni, voc voltou?" quando reconheceu a voz do irmo. Abriu os olhos e viu Eduardo na frente dele; estava magro, meio nu, 
os olhos fundos; passava um pano molhado no rosto de Henrique, era o resto da sua camisa.   Falou para o irmo:
        - Por onde andou, Henrique? Diga logo. O que aconteceu com voc?
        Henrique esfregou os olhos; no quis falar logo a verdade, deixou para mais tarde, seno Eduardo pensaria que ele no estava bom da cabea.   Disse:
        - Estive perdido na floresta todo esse tempo. E voc?   Ficou sempre na prainha?   Sozinho?
        - Estive procurando voc, depois desisti; estou fazendo a jangada para voltarmos para a fazenda dos padrinhos. Pensei que voc tivesse cado no rio e se 
afogado. Quase morri aqui sozinho.
        - Eu quis voltar, mas no consegui, Eduardo.  Aconteceu tanta coisa comigo...
        Eduardo estava curioso e queria saber tudo:
        - O que foi?   Conte depressa.   Viu algum na ilha? Vamos primeiro ver a jangada.   Est pronta?
        Eduardo entusiasmou-se:
        - Est quase pronta; imagine voc que se eu tivesse de trabalhar s com a faca decerto levaria um ano, mas encontrei outro dia na praia uma machadinha formidvel 
Quer ver?
        Henrique acompanhou Eduardo; tinha a cabea ainda atordoada, nem sabia onde estava.   Perguntou:
        - O que voc comeu durante todo esse tempo? Voc est magro, Eduardo...
        - Comi frutas e razes de rvores.   E voc?
        - Comi de tudo, contarei depois. Eduardo continuou:
        - Quando voltei para a prainha naquela tarde, no encontrei voc.   Onde voc foi?
        - Fui procurar frutas na floresta, depois encontrei Simo, o morador aqui desta ilha..
        - O qu? Henrique, voc est maluco? Na ilha no existe morador algum.
        Henrique sorriu:
        - Ora se existe... Vivi na caverna dele todo esse tempo.   Com ele e os bichos...
        Eduardo estava cada vez mais admirado:
        - Que bichos?
        - Uma poro de bichos: micos, papagaio, coruja, ona...
        - Qual, voc est sonhando... Henrique perguntou:
        - E aquela enchente terrvel?
        - J  acabou  h muito  tempo;  creio  que  foi  essa enchente que trouxe a machadinha para a praia.   Venha
        Assim conversando, eles caminharam at o lugar onde estava a jangada. Eduardo trabalhara muito; no era uma jangada muito grande, mas, os paus estavam bem 
amarrados com cips e com certeza navegaria sem dificuldade. Henrique admirou-se:
        - Como voc trabalhou, Eduardo!   E sozinho aqui?
        - Sozinho. Apenas com esta machadinha que encontrei por acaso.
        Quando Henrique olhou, reconheceu uma das machadinhas feitas por Simo; naturalmente Simo encontrara um jeito de dar uma machadinha para Eduardo trabalhar. 
Que bom homem era Simo! Henrique no disse que conhecia a machadinha; s perguntou.
        - E o canivete tambm no serviu? Era um bom canivete...
        Eduardo respondeu:
        - Voc levou o canivete... Henrique protestou:
        - No levei, deixei-o espetado numa rvore para mostrar o caminho a voc.
        - Voc est sonhando, Henrique. Em que rvore? Vamos ver...
        Logo encontraram o canivete espetado num tronco, tal qual Henrique deixara. Comeram bananas que Eduardo guardara escondidas sob uns galhos; depois ele mostrou 
a Henrique a cama que arranjara debaixo de uma grande pedra.         
        Quando anoiteceu, dormiram a nesse lugar; mas Henrique no dormiu bem, acordou muitas vezes pensando em Simo e na gruta. Bem dissera Simo que ningum 
acreditaria no que ele contasse.   Era verdade.
        No dia seguinte prepararam-se para voltar  fazenda; o rio estava calmo, mas a viagem ia ser difcil.   Se conseguissem ao menos atravessar o rio e chegar 
a uma das margens, subiriam a p depois at  fazenda;
        Antes de partir Eduardo comeu umas razes e disse a Henrique que comesse tambm; no era  muito gostoso mas servia para matar a fome. Henrique experimentou, 
mas no conseguiu, lembrou-se da caverna e dos quitutes que Simo sabia preparar. 
        Disse que preferia comer uns ings que havia na beira do rio; Eduardo disse que ing era uma fruta insignificante e no matava a fome; Henrique no respondeu, 
comeu alguns, encheu os bolsos com outros e preparou-se para pular na jangada. Arranjaram paus compridos para servirem de remos; esses paus ao menos serviriam para 
dirigir um pouco a embarcao.
        Eduardo pulou primeiro, depois Henrique; a jangada comeou a balanar sobre as guas; desamarraram a corda que a prendia e ela deslizou de leve rio abaixo. 
Ento os dois meninos fizeram um grande esforo para que ela atravessasse o rio e fosse para a margem oposta; mesmo que aportassem longe da fazenda, encontrariam 
algum que os guiasse por terra; sozinhos na jangada que no obedecia, iriam parar sabe Deus onde e seria perigoso.
        Mas a correnteza estava forte e teimava em arrastar a jangada rio abaixo; Henrique comeou a desesperar.        
        - Onde iremos parar? Desse jeito, vamos ficando cada vez mais longe da fazenda. Depois no poderemos voltar.
        Eduardo esforava-se para remar.
        - Coragem, Henrique. No vamos desanimar agora que estamos quase vencendo. Procure empurrar a jangada com o outro pau; ao menos serve de remo.
        - J tentei e no consegui; ela no obedece.
        E os dois esforavam-se para levar a jangada para a beira do rio, mas a jangada era puxada pela correnteza e ia descendo o rio, sem esperana de parar. Eduardo 
perguntou:
        - Onde iremos parar assim? Ela vai nos levar para muito longe.
        Henrique disse:
        - O pior  esta gua que comea a entrar por entre os paus; parece que a jangada vai se abrir.
        - Qual o que, disse Eduardo. Eu prendi tudo muito bem com cip; levei horas fazendo esse trabalho.
        - Mas voc no tem prtica, Eduardo.
        - No tenho prtica, mas fiz tudo muito bem feito. Duvido que os cips no estejam firmes.
        - Decerto esto firmes, mas se ficarmos muito tempo assim, eles no agentaro.
        - Garanto que agentam muito bem. Felizmente naquele lugar o rio corria muito devagar, de modo que a jangada flutuava de manso e os dois meninos no perdiam 
a coragem. De vez em quando Henrique comia um ing e oferecia a Eduardo, haviam trazido bananas para comerem mais tarde, se tivessem muita fome. Queriam economiz-las, 
pois no sabiam quanto tempo iriam ficar sem ter o que comer.
        Foi quando os dois viram, quase ao mesmo tempo, uma embarcao que vinha em sentido contrrio; era dirigida por trs homens. A distncia, no percebiam muito 
bem se eram trs ou quatro homens. Os dois meninos ficaram de p na jangada, mudos de espanto e alegria; estavam salvos.
        Quando ficaram de p, a jangada quase virou com eles; sentaram-se outra vez e Eduardo tirou o palet e colocou-o na ponta do pau que servia de remo para 
que os homens vissem; Henrique ps a mo no canto da boca e gritou com fora:
        - Socorro!   Socorro!





Quando ficaram de p, a jangada quase virou com eles. 


Henrique comeou a gritar por socorro.







        Nada disso era preciso; os homens j haviam avistado a jangada, pois eram empregados da fazenda do padrinho e h oito dias no faziam outra coisa seno percorrer 
o rio  procura dos dois rebeldes. Padrinho estava noutro barco que passara horas antes.
        No momento em que o barco se aproximou da jangada, todos viram com horror que os paus j estavam se desamarrando uns dos outros; mais meia hora e os meninos 
se afogariam no rio.
        Bento estava entre os homens da fazenda; quando viu os meninos, foi falando logo:
        - Xi! Na fazenda pensaram que vocs haviam morrido afogados. Esto todos assustados, ningum tem dormido direito...
        Auxiliaram os dois meninos a pularem para o barco; Eduardo que havia construdo a jangada, quis levar ao menos uns paus como lembrana, mas no conseguiu; 
ela se separou em duas partes e rodou pelo rio. Os homens queriam saber quem construra e quando Eduardo contou que fora ele sozinho, no quiseram acreditar, parecia 
impossvel. 
        Bento no parava de falar; disse que Henrique estava bem, mas Eduardo parecia muito magro; perguntou se haviam passado muita fome. Quando Henrique contou 
que comera muito bem na caverna de Simo, todos queriam saber quem era Simo; mas ningum acreditou em Henrique. 
        Os homens sorriam olhando uns para os outros, depois perguntaram se Henrique estivera com febre, pois era bem possvel que ele tivesse tido febre esse tempo 
todo e tivesse sonhado.
        Eduardo e Henrique sentaram-se no fundo da canoa, exaustos e famintos; a canoa foi subindo dirigida pelos empregados que no cansavam de perguntar a respeito 
da ilha. Queriam saber onde haviam dormido e o que haviam comido.   Henrique perguntou:
        - Vocs no foram at a ilha? Por que no procuraram l?
        Os empregados contaram que haviam contornado a ilha vrias vezes e at percorrido uma parte dela; haviam gritado pelos nomes deles e como no houvessem encontrado 
rasto, nem vestgio algum, tinham voltado.
        Os meninos respondiam o que os homens perguntavam, e estavam ansiosos por chegar a fazenda; meia hora depois, avistaram a canoa em que vinham o padrinho 
e mais dois empregados. 
        Eduardo e Henrique sentiam-se muito envergonhados do que haviam feito; baixaram as cabeas com vontade de chorar. Padrinho nem acreditou quando os viu; abraou 
os dois meninos com ar meio zangado, dizendo que eles nunca deviam ter feito aquilo Eduardo fez cara de choro e Henrique pediu logo des culpas. 
        Padrinho continuou contando que o desaparecimento deles causara grande alvoroo na fazenda e que madrinha estava inconsolvel, chorava todos os dias. Contou 
tambm que duas canoas estavam sempre navegando rio abaixo e rio acima  procura dos dois; e toda a vizinhana dizia que eles se haviam afogado.
        Padrinho levou  boca um apito e tocou demoradamente trs vezes; depois disse que era para avisar madrinha que eles estavam sos e salvos.
        Quando os barcos chegaram  vista da fazenda, viram madrinha, Quico, Oscar, a cozinheira Eufrosina e outros empregados esperando na margem do rio; houve 
muitos abraos misturados com lgrimas e beijos. Voltaram juntos para casa; Oscar queria saber tudo de uma vez: onde eles haviam estado, por que haviam demorado 
tanto? Quando ele e Quico souberam que os dois haviam passado toda essa semana na Ilha Perdida, abriram a boca cheios de espanto.   Oscar disse:        
        - Impossvel!
        Quico perguntou logo:
        - H gente morando l? Henrique respondeu:
        - H um homem muito bom chamado Simo... Eduardo interrompeu:
        - Mas eu no vi nada; Henrique  que esteve com ele.
        Os dois pequenos, assim como madrinha, ficaram sem compreender.   Madrinha disse:
        - Mas peo a vocs que nunca mais faam isso; desta vez ns perdoamos, nem mandamos contar aos seus pais em So Paulo. Mas quero que me prometam nunca mais 
deixar a fazenda sem um de ns.
        Henrique e Eduardo prometeram solenemente e con taram o arrependimento que sentiam por terem ido para a Ilha Perdida sem contar nada a ningum.
        Madrinha censurou os dois meninos at chegarem  casa. Eduardo fez outra vez cara de choro, padrinho disse:
        - Est bem, agora vo tomar um banho que esto precisando, depois vamos conversar.
        Tomaram banho com sabonete perfumado, depois jantaram muito bem, achando tudo delicioso, principalmente Eduardo que s comera razes e frutas. Os dois sentiam-se 
fracos e cansados; ento madrinha mandou-os para o quarto; precisavam dormir, dormir muito. Quico pediu:
        - Mas ns queramos saber hoje mesmo tudo o que  aconteceu...
        Padrinho disse:
        - Deixe os dois descansarem bem; amanh tero tempo de sobra para ouvir as aventuras.
        Quico insistiu:
        - Conte alguma coisinha, Eduardo.   Por favor.
        - Eu fiquei na prainha da ilha, disse Eduardo. Henrique desapareceu e s apareceu ontem.
        - No diga!   Onde ele andou?
        Ficaram olhando para Henrique com ar admirado. Oscar falou primeiro:
        - Henrique!   Onde voc esteve?   Conte! Henrique que j estava na porta do quarto, voltou-se para dizer:
        - Estive morando na caverna de Simo. Ningum acreditou; pensaram que Henrique estivesse delirando e madrinha ps a mo na sua testa para ver se tinha febre. 
Depois falou:
        - Est muito bem; amanh voc conta isso. V dormir.

AS HISTRIAS  DE   HENRIQUE
        
        No dia seguinte os dois meninos acordaram um pouco admirados por estarem novamente na fazenda dos padrinhos aps tantos dias de ausncia. Abriram a porta 
do quarto e avistaram Quico e Oscar andando de um lado para outro ansiosos por saberem as novidades. 
        Foram todos tomar caf; padrinho e madrinha apareceram na sala de jantar perguntando se haviam passado bem a noite e no haviam estranhado o colcho, pois 
h muitos dias no sabiam o que era dormir numa cama. Quico perguntou com a boca cheia de po:
        - Conte, Henrique. Onde voc esteve? No estiveram juntos?
        Padrinho disse com voz severa:
        - Antes de mais nada, quero dizer que vocs fizeram muito mal. Onde se viu tirar a canoa sem nossa licena? Quero que prometam nunca mais fazer uma coisa 
dessas.
        Os dois disseram quase ao mesmo tempo:
        - Prometemos padrinho. Nunca mais faremos isso, pode ficar sossegado.
        Madrinha continuou:
        - No mandamos contar nada aos seus pais em So Paulo porque eles ficariam desesperados, mas passamos uma semana horrvel sem saber o que havia acontecido. 
Nem dormimos direito, pois nossa preocupao era enorme.
        Eduardo e Henrique tornaram a pedir desculpas aos padrinhos pelo mal que haviam causado e disseram que na vspera estavam to tontos e cansados que nem sabiam 
o que diziam. Padrinho ainda fez um pequeno sermo sobre meninos desobedientes e terminou falando que daquela vez perdoava, mas que eles nunca mais cassem noutra.
        Depois do caf com leite que os dois acharam uma delcia, padrinho pediu que cada um contasse por sua vez o que havia acontecido. Eduardo falou primeiro 
e quando contou que construra a jangada sozinho e apenas com auxlio de uma faca e depois de uma machadinha encontrada por acaso, todos ficaram admirados e Quico 
quis saber de que jeito ele amarrara os paus.
        Eduardo contou tudo bem direitinho e acabou de falar; ento Henrique contou sua prpria aventura; desde o momento em que ficara na prainha sozinho e aparecera 
um homem barbudo perguntando o que estava fazendo ali.
        Padrinho perguntou muito admirado:
        - O qu?   Vive algum na Ilha Perdida?
        Ento Henrique contou a histria de Simo; de como ele vivia l na ilha h quase vinte anos e dos bichos que viviam na sua caverna. Henrique percebeu logo 
que ningum estava acreditando nas suas palavras; madrinha olhou para padrinho sem dizer nada; Quico e Oscar tambm ficaram de boca aberta. Madrinha perguntou meigamente:
        - No seria sonho, Henrique? Voc no esteve doente?
        - No, madrinha. No sonhei, nem estive doente. Tudo isso  verdade.
        Oscar perguntou:
        - E os sapatos feitos de cip? Por que no os trouxe para casa?
        Quico disse:
        - Eu queria ver a machadinha que voc usava na cintura.   Onde est?
Henrique respondeu:
        - Simo no quis que eu trouxesse nada da ilha; quis que eu viesse do mesmo jeito que l cheguei.
        Voltou-se para o irmo e perguntou:
        - Eduardo, onde est a machadinha que voc achou na ilha?
        - No sei, ela estava com Voc.
        - Comigo no, Eduardo. Quem estava com ela era voc.
        Ficaram tristes ao ver que nenhum deles trouxera a machadinha, uma das nicas ou a nica lembrana da ilha.. Henrique continuou a falar:
        - Pois essa machadinha, que serviu para Eduardo construir a jangada, foi feita por Simo. Vi vrias iguais na caverna.
        Eduardo sacudiu a cabea sem acreditar; depois perguntou:
        - Ento como  que ela foi parar na prainha?
        - No sei, disse Henrique. Quem sabe Simo fez de propsito; deu um jeito de pr a machadinha na prainha para ajudar voc.
        - Impossvel, falou Eduardo. 
        Padrinho pediu:
        - Est bem, Henrique, conte mais alguma coisa. Quais eram os bichos que viviam com Simo?
        Henrique ento falou sobre os micos e a oncinha; contou como Boni vivia no ombro dele e os Cinco o ensinavam a pular de galho em galho. Madrinha perguntou:
        - E o que comiam ria caverna, Henrique? Comiam frutas e razes?
        - Comamos frutas, carne de capivara, ovos, peixe que Simo pescava. Laranjas, bananas, cocos, mames, maracujs, ameixas, mangas, fruta-po...
        Arregalaram os olhos.   Quico gritou:
        - Como passavam bem! 
        Henrique sorriu e disse:
        - Os micos comiam po-de-l...
        Quico e Oscar pensaram que Henrique estava inventando demais; Henrique terminou:
        - Vocs conhecem aquela fruta que tem um p amarelo - jatai?
        Todos sacudiram a cabea dizendo que conheciam. Henrique continuou:
        - Pois o jatai  chamado - po-de-l-de-mico. Os miquinhos gostam muito.
        Todos deram risada.   Henrique tornou a falar:
        - H uma rvore na ilha que d espcie de fava espinhuda; pois essa fava  chamada pente-de-macaco. Os micos se penteavam com essa fava quase todos os dias, 
cada um tinha a sua.
        Quico perguntou com olhos arregalados:        
        - Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco precisavam pentear os cabelos?        
        Eduardo corrigiu:        
        - Nao penteavam os cabelos, Quico. Penteavam os plos.   Mico tem plo.
        Oscar perguntou a Henrique:        
        - Ento voc sabe pular de galho em galho? Aprendeu com os micos? Vamos j tirar a prova!
        Quico concordou:
        -  mesmo. Se ele aprendeu com os micos, vai mostrar como  que mico faz.   Vamos para o pomar.
        Levantaram-se da mesa e foram; Eduardo tambm estava duvidando do irmo. Padrinho e madrinha acompanharam; Bento apareceu com o rosto muito desconfiado e 
foi atrs deles. 
        Chegando ao pomar, Henrique tirou os sapatos e as meias, como fazia na ilha; depois o palet. Todos ficaram  volta dele esperando as proezas. Henrique deu 
um pulo e dependurou-se num galho da mangueira; experimentou saltar para outro galho, mas teve receio, ento deixou-se cair ao cho. Escolheu outra rvore e outro 
galho; preparou-se todo e num pulo alcanou o galho. Quico gritou:
        - Isso eu tambm fao...
        - Psiu... fez padrinho. Deixem Henrique sossegado. 
        Henrique  ficou  dependurado  calculando  a  distncia entre um galho e outro; de repente criou coragem e deu o pulo; quebrou-se o galho onde ele segurou 
e quase foi ao cho, padrinho auxiliou-o a descer. Pela terceira vez ele tentou; dessa vez ficou suspenso no ar sem coragem para saltar; padrinho tornou a auxili-lo. 
        Madrinha olhou padrinho e os dois sacudiram a cabea duvidando das histrias de Henrique.   Ele disse meio desanimado:
        - Eu ainda estava aprendendo, padrinho. Eu no disse que sabia, disse que os micos estavam me ensinando.
        Madrinha disse:
        - Est bem, est bem. E que mais? Aprendeu mais alguma coisa com Simo?
        Henrique falou sobre a horta e o pomar. Contou que a fruta-po viera de uma ilha do Pacfico. Bento que escutava de um lado, perguntou:
        - Ento tinha horta tambm? Como  que temperava alface?
        - Tinha outras coisas, mas alface no. Abbora, batata-doce, car, mandioca...
        Oscar perguntou duvidando sempre:
        - E a fruta-po? Voc comeu?  como po mesmo? Henrique tornou a afirmar que comera; contou que dormiam na caverna sobre xales feitos de penas coloridas 
de aves. Qual! Ningum acreditava. Uns achavam que ele sonhara, outros achavam que ele inventara isso tudo para fazer bonito.   Quico disse:
        - Voc afirmou que Simo era bom para todos os animais. Ento como  que ele matava as aves para tirar as penas?
        - Ele no matava as aves, respondeu Henrique. Essas penas eram encontradas no planalto quase todos os dias. Perto da gruta havia um planalto onde os pssaros 
e as aves vinham todos os dias visitar Simo. E deixavam a uma poro de penas que Um-Dois-Trs--Quatro-Cinco ajuntavam e guardavam na caverna para depois Simo 
fazer as cobertas.
        - Hum! resmungou Bento. Tudo isso  bem esquisito ...
        Todos os dias era a mesma coisa; pediam a Henrique que contasse alguma histria da Ilha Perdida e quando ele contava ningum acreditava. Henrique j estava 
desanimado e pensando como fazer para que acreditassem nele.

VERA E LCIA, PINGO E PIPOCA CHEGAM  FAZENDA

        Na mesma semana chegou uma carta de So Paulo contando que Vera e Lcia viriam passar as frias de dezembro na fazenda dos padrinhos. Houve grande alvoroo 
entre eles. Queriam saber se Pingo e Pipoca tambm viriam, mas isso ningum sabia, a carta no dizia.
        Passaram-se mais alguns dias em grandes preparativos; afinal as duas meninas chegaram acompanhadas pelos dois cachorrinhos.   
        Quico ficou entusiasmado:
        - Ih!   Que farra!
        Comearam as correrias pelo pomar, pelo campo, pelo riozinho. Organizaram pescarias onde quase ningum pescava. Levantavam de madrugada para andar a cavalo. 
Henrique e Eduardo iam buscar os bezerrinhos no pasto. Pingo e Pipoca no sabiam o que fazer; era tanta folia que eles no tinham tempo nem para se coar.
        Tupi, o cachorro da fazenda, ficou desconfiado nos primeiros dias ao ver que Pingo e Pipoca eram mais queridos; depois no deu mais importncia; j estava 
mesmo velho e s gostava de dormir. Dormia quase o dia inteiro; mas  noite, ficava alerta tomando conta de tudo.
        Vera gritava:        
        - Venha, meninada, venha brincar.
        Chamava os cachorros de meninos; Lcia chamava-os para outro lado.   Henrique e Eduardo iam at a margem do Paraba e queriam que os cachorrinhos fossem 
com eles. Os bichinhos pinoteavam para c e para l sem saber a quem seguir.   Divertiam-se a valer.
        Depois do jantar, a crianada sentava-se no terrao e conversava at a hora de dormir; Vera e Lcia ficaram sabendo tudo a respeito da Ilha Perdida.         
        Lcia interessou-se muito pelos micos; queria saber como andavam, se tinham rabo comprido, o que faziam com o rabo quando dormiam. Vera queria saber se Lucas 
tinha chifres; Henrique respondeu que os veados que vivem nas florestas no tm chifres.   S os tm os que vivem nas plancies.
        Durante horas e horas faziam mil perguntas a Henrique; queriam saber se ele gostaria de voltar  ilha; Henrique respondia que tinha vontade, mas era to 
difcil, nem pensava nisso.
        Muitas vezes, durante o dia, surpreendiam Henrique sentado no alto do morro contemplando a ilha l embaixo, no meio do rio. Ele nada dizia, mas pensava com 
saudades em Simo e em todos seus companheiros da caverna.
        As duas meninas pediram a Eduardo que fizesse uma jangada do mesmo jeito que ele havia feito na prainha da ilha, utilizando apenas a machadinha do Nh Quim. 
Foram pedir a Nh Quim que emprestasse a machadinha. Eduardo prometeu fazer a jangada; foram todos para a mata que havia na fazenda e Eduardo comeou a trabalhar 
na presena de todos; mas ningum auxiliava; sentaram-se  volta dele e ficaram olhando.  Bento tambm veio espiar.
        De vez em quando um perguntava:
        - Foi assim que voc fez? Outro .dizia:
        - Mas assim os paus no ficaram seguros. 
        Quico pediu:
        - Ningum deve dar palpites. Vamos deixar Eduardo trabalhar.
        Eduardo queixava-se de que naquela mata no havia cips como na ilha; ali eram cips duros que no torciam como ele queria. Davam risadas e caoavam dos 
esforos que Eduardo fazia para construir a jangada. Tinham pressa que a jangada ficasse logo pronta para lev-la ao riozinho; queriam saber se ela navegava mesmo. 
Eduardo trabalhava o dia inteiro, mas o trabalho no progredia, ia muito devagar.
        Padrinho sorria e dizia que a necessidade faz milagres; Eduardo fizera a jangada para se salvar, por isso no achara difcil; agora fazia por divertimento, 
por isso o servio no progredia.
        Um dia estavam todos no pomar quando Vera veio com a novidade; contou aos outros que ouvira padrinho dizer  madrinha que pretendia fazer uma excurso  
ilha na semana seguinte. 
        Quico e Oscar no acreditaram, disseram que achavam isso impossvel. Eduardo achou a idia esplndida e queria saber se eles tambm iriam; ento resolveram 
mandar Lcia sondar.
        Lcia era a menor e podia disfaradamente perguntar qualquer coisa  madrinha: durante trs dias Lcia andou atrs da madrinha sondando; mas nada descobriu.
        Foi ento que Oscar veio com outra notcia:
        -  Acho que vamos ter novidade; papai mandou pedir emprestada a canoa do Seu Viriato.
        Seu Viriato era um fazendeiro vizinho. Ficaram excitados.   .
        - Ento  verdade! Padrinho est projetando uma excurso  ilha!
        Quando a canoa do Seu Viriato foi amarrada  margem do rio, nas terras da fazenda, ningum perguntou nada ao padrinho, mas cada um por sua vez foi espiar. 
        Lcia foi mandada em primeiro lugar; chamou Pingo e Pipoca e foi examinar a canoa.   
        Voltou desapontada dizendo que decerto padrinho ia sozinho, a canoa era muito pequena. Durante dois dias, cada um deles ia at o lugar onde estava a canoa, 
espiava e voltava dizendo que tudo ia na mesma, no havia novidade.
        De repente a excitao das crianas aumentou; viram padrinho mandar buscar outra canoa, desta vez era uma espcie de barco, onde cabiam muitas pessoas. Quando 
o barco chegou, ficaram duas noites sem dormir direito. Iriam mesmo  Ilha Perdida?

A  EXPEDIO

        Afinal, dias depois,  hora do almoo, padrinho falou: - Quem quer ir comigo  ilha?   Quem quiser levante a mo direita.
        Os seis levantaram a mo imediatamente e padrinho deu risada, depois explicou:
        - Estou preparando tudo para fazer uma visita a Simo, o amigo de Henrique. Vamos todos no barco e Bento e Tomsio vo na canoa levando mantimentos e barracas. 
Conforme for, dormiremos uma noite na ilha, vamos descobrir o homem barbudo. Vamos descobrir o mistrio da ilha que por enquanto s Henrique conhece.
        Foi um sucesso. Desse dia em diante no se falou nem se pensou noutra coisa a no ser na excurso. S Henrique ficou tristonho, Simo no queria que o descobrissem; 
ao mesmo tempo lembrou-se das palavras dele:
        - Podem vir, ningum me encontrar.
        Passaram mais uns dias em preparativos; Vera e Lcia prepararam as calas compridas e as blusinhas; madrinha tratava das coisas que levariam. Arranjava cestas 
com latas de presunto, pat, compotas. Amarrava frigideiras, panelas, garrafas para gua, copos de papelo, roupas para os meninos, meias.
        Padrinho arrumava numa caixinha de injees contra mordidas de cobra, vrios remdios contra gripe, cortes, queimaduras Todos se sentiam animados e satisfeitos 
com a aventura, que seria uma verdadeira expedio.
        Escolheram uma quinta-feira e na madrugada desse dia, prepararam-se para embarcar; levariam os dois cachorrinhos, pois eles poderiam prestar bons servios 
na ilha. Levaram tambm uma cestinha com ovos cozidos, vrios quilos de lingia e uns pacotes de manteiga que Eufrosina lhes deu  ltima hora para reforar a matula 
feita por madrinha.
        Madrinha despediu-se deles no terrao da casa, desejando que fossem felizes na excurso. Ainda estava escuro quando a caravana desceu o morro a caminho do 
lugar onde estavam amarrados o barco e a canoa. Embarcaram com coragem e animao. Assim que os barcos comearam a descer o rio, o sol surgiu no horizonte e Henrique 
e Eduardo lembraram-se do dia em que haviam fugido, umas semanas antes; fora numa madrugada como aquela.
        Navegaram durante umas horas e os barcos deslizaram pelo rio levando o bando de crianas ansiosas pela aventura na ilha; queriam conhecer Simo e ver a caverna 
onde Henrique morara durante oito dias. Mas no ntimo no acreditavam nem na existncia de Simo, nem na da caverna, nem em nada do que Henrique contara.
        Quando avistaram a ilha, deram gritos de alegria; os cachorros latiram.   Padrinho perguntou:
        - De que lado ficar a prainha? Vamos desembarcar na prainha onde Eduardo construiu a jangada.
        Eduardo e Henrique no souberam explicar de que lado ela ficava; tinham ido parar nela por acaso e no sabiam agora descobri-la. Quando Henrique viu outra 
vez a ilha de perto, com suas palmeiras e coqueiros, suas grandes rvores, seu ar de mistrio, sentiu o corao pulsar fortemente. 
        Com certeza Simo estava nesse momento no ponto mais alto da ilha, olhando os barcos que se aproximavam. E a telegrafia sem fio estaria trabalhando entre 
os animais; todos estavam avisando uns aos outros do perigo que se aproximava.  Os animais haviam de se esconder e Simo desapareceria nalgum lugar misterioso que 
ningum descobriria,
        Padrinho resolveu encostar os barcos em qualquer ponto da ilha, pois j era tarde e estavam com fome; a prainha no fora encontrada.
        Todos desembarcaram; Bento e Tomsio comearam a preparar as panelas para o almoo; as crianas foram fazer uma excurso pelos arredores juntamente com padrinho. 
De repente ouviram o grito de Bento:
        - O almoo est na mesa!
        Voltaram dando risada, pois no havia nem sombra de mesa; sentaram-se no cho e com os pratos de papelo nas mos, comeram lingia com ovos e po. Depois 
comeram pessegada e tomaram caf feito pelo Bento. Deitaram se um pouco depois do almoo, depois padrinho disse:
        - Vamos ento dar umas voltas.
        Penetraram na mata e caminharam abrindo caminho entre cips e folhagem cerrada; padrinho e Tomsio iam na frente, depois as crianas e atrs seguia Bento 
com uma grande faca de cozinha entre as mos. Os cachorros pulavam de um lado para outro, entusiasmados com o passeio. De vez em quando, padrinho parava e perguntava, 
indicando uma rvore ou uma rocha:
        - No reconhece este lugar, Henrique? 
        Henrique sacudia a cabea; no estava reconhecendo nada, nem rvores, nem pedras. Parecia nunca ter passado por ali; quando um dos cachorros parava e latia 
para uma moita, iam espiar o que havia. s vezes era um coelho ou uma raposa que se escondiam ou saam correndo aos pinotes pelo mato adentro. Assim andando, foram 
parar num rochedo muito alto; contornaram o rochedo e desceram o caminho que havia atrs dele. Era uma espcie de trilho existente atrs das pedras. O caminho era 
batido e padrinho disse logo:
        - Muitos bichos passam por aqui, vejam como a terra est pisada.
        Henrique  falou:
        - Os bichos vo tomar gua no riozinho que h l embaixo, padrinho.   uma nascente com gua muito pura.
        Padrinho parou para olhar Henrique:
        - Como  que voc sabe que h uma nascente l embaixo?
        Todas as crianas olharam Henrique quando ele respondeu:
        - Eu vim aqui um dia com Simo e Boni; foi no dia em que a veadinha morreu. Eu me lembro que paramos, descemos este caminho e bebemos gua no riozinho.  
um lugar cheio de avencas e samambaias.
        Desceram correndo para ver se de fato havia a nascente que Henrique falara; l estava ela entre samambaias muito verdes e avencas que caam em pencas nas 
margens. Padrinho ficou pensativo; tornou a perguntar:
        - Ento vocs passaram por aqui, Henrique?
        - Passamos, sim senhor.
        - Nesse caso, voc sabe o caminho da gruta.
        - No sei, padrinho. Depois que samos daqui, fomos diretamente para o bosque de pinheiros. Quando voltamos de l, fomos para a gruta sem passar por aqui.
        Ficaram durante algum tempo examinando o lugar, tomaram gua fresca e voltaram subindo outra vez por trs do rochedo.
        Depois de caminharem mais de uma hora pelo meio da mata sem encontrar nada, padrinho resolveu voltar para o lugar onde haviam ficado os botes; j era tarde 
e ainda tinham que preparar o jantar e armar as barracas para passarem a noite. Voltaram pelo mesmo caminho, todo marcado com galhos quebrados e cortes de faca nos 
troncos; esses cortes haviam sido feitos de propsito para evitar que se perdessem e assim pudessem chegar ao lugar onde haviam desembarcado pela manh.
        Trataram imediatamente de armar duas barracas, todas as crianas auxiliaram; depois comeram o jantar preparado por Bento. A noite caiu rapidamente. Padrinho 
chamou todos para dentro das barracas, no queria que ningum ficasse fora.
        Uma vela ficou acesa at mais tarde enquanto os mais velhos conversavam; os cachorros deitaram-se ao lado de Vera e Lcia e dormiram no mesmo instante; mas 
era um sono leve, pois a todo o momento abriam um olho e davam uma espiada para os lados. Se ouviam um barulhinho qualquer, ficavam alertas, as orelhas espetadas, 
esperando alguma coisa.
        Quico e Oscar ficaram na mesma barraca com Vera, Lcia e padrinho; na outra, ficaram Bento, Tomsio, Henrique e Eduardo. s dez horas todos estavam dormindo. 
Apesar de ser vero, a noite estava muito fresca. Haviam levado oleados para serem usados caso chovesse na ilha, mas naquela noite no choveu.
        J estava chegando a madrugada quando Henrique ouviu uma espcie de assobio; lembrou-se que os micos assobiavam assim. Levantou-se sem fazer barulho, arrastou-se 
para fora da barraca e espiou  volta; havia uma mancha no cu, era o sol que j vinha surgindo. O rio corria manso e uma leve brisa passava entre o arvoredo. Pingo 
estava fora da barraca olhando para todos os lados, um ar desconfiado, decerto tambm ouvira alguma coisa. Henrique chamou baixinho:
        - Pingo!   Pingo!   Vem c!        
        O cachorro aproximou-se amistosamente e Henrique segurou-o pelo pescoo dizendo:        
        - Quieto!   Vamos ver o que h!
        Olhou as rvores prximas, olhou as moitas, procurou por todos os lados acompanhado por Pingo e no viu nada; mas tinha certeza de que ouvira o assobio e 
no se enganara. O cachorrinho tambm procurava como se quisesse descobrir alguma coisa escondida na folhagem. No seria Boni que estava por ali espiando?   Chamou:
        - Boni!
        Nada. Pingo levantava o focinho e suas narinas aspiravam o ar; Henrique entrou na mata e chamou Pingo; caminharam juntos procurando por todos os lados; Henrique 
subiu numa das rvores, pois parecia que a folhagem movia-se l em cima. Chegou at quase ao alto sem nada encontrar; Pingo, vendo-o desaparecer entre os galhos, 
comeou a latir como que chamando-o. 
        Henrique desceu outra vez e escutou; ralhou com o cachorrinho; s ouviu o vento sussurrar entre os ramos e o barulhinho do rio que passava sem cessar.
        Voltou para a barraca ainda procurando; foi ento que encontrou uma casca de banana no cho. Como no tinham levado banana para a ilha, isso significava 
que algum estivera por ali; ou Simo, ou um dos micos. Decerto tinham vindo espi-los enquanto dormiam. Guardou a casca de banana no bolso. 
        Quando chegou  beira do rio, viu Bento procurando lenha para fazer fogo; disse que ia preparar um bom caf. Todos j estavam se levantando e Pipoca vinha 
saindo da barraca, todo sonolento, atrs de Vera. 
        Espreguiou-se e foi beber gua no rio. Vera e Lcia debruaram-se na margem para lavar os rostos; disseram que haviam dormido muito bem. Queriam saber o 
que Henrique fora fazer na mata to cedo, s com Pingo. 
        Henrique no mentia; contou que ouvira um assobio e fora "verificar o que era; encontrara ento a casca de banana. A casca passou de mo em mo; era de uma 
qualidade de banana que no existia na fazenda; Bento chegou a cheirar a casca dizendo que o cheiro era de banana selvagem.   
        Padrinho examinou-a sem dizer nada.
        Depois de terem lavado os rostos e escovado os dentes, padrinho chamou-os para o caf com leite; madrinha pusera uma lata grande de leite condensado na cesta. 
Comeram bolachas e queijo.
        Guardaram tudo novamente e prepararam-se para outra excurso atravs da ilha.

HENRIQUE SENTE SAUDADES

        Eram ste horas  da manh  quando  se  embrenharam na floresta; enquanto iam andando, deixavam sinais de sua passagem para saberem voltar.
        Encontraram orqudeas, viram serelepes pulando entre os galhos, subiram em rvores bem altas para observar os arredores.   Assim caminhando foram dar na 
prainha.
        Eduardo deu gritos de alegria quando reconheceu o lugar onde ficara sozinho durante uma semana construindo uma pobre jangada apenas com a machadinha e uma 
faca. Correu e mostrou o p de ing, cujos galhos estavam dependurados na margem do rio; mais adiante mostrou uma touceira de bananeiras; infelizmente naquela ocasio 
no havia bananas.
        Mostrou a pedra que servia de abrigo quando chovia e sob a qual ele dormia. .Reconheceu as rvores, das quais tinha cortado os galhos para fazer a jangada.
        Ficaram muitas horas na prainha e resolveram almoar naquele lugar; Bento fez fogo para o caf. Depois do almoo, que haviam levado em cestas, andaram ainda 
ali por algum tempo procurando mais alguma coisa; Henrique ento mostrou o lugar onde estivera sentado no momento em que Simo aparecera pela primeira vez.
        Mostrou tambm o lugar onde entrara na mata acompanhando Simo; lembrava-se da rvore onde deixara o canivete cravado para que o irmo visse quando voltasse.
        Todos entraram na mata acompanhando Henrique; ele andava na frente mostrando o caminho que estava reconhecendo. Seria incapaz de levar a turma at a caverna 
de Simo, mesmo que soubesse o caminho. Sabia que isso perturbaria seu amigo e no queria aborrec-lo. 
        Depois de algum tempo de marcha, parou dizendo que no sabia mais o lugar por onde andara com Simo, olhou de um lado para outro dizendo que se perdera, 
no sabia mais nada.
        Resolveram ento voltar. Como esse lugar era muito cerrado, um andava atrs do outro, em fila indiana. De repente pan! Henrique sentiu uma pancadinha na 
cabea; olhou para cima e no viu nada. Apenas uma bolota que lhe cara na testa. Mais adiante pan! Outra pancadinha; tornou a olhar para cima. Nada.         Apenas 
uns galhos que se moviam l no alto. Seriam seus amigos, os micos, que estavam com brincadeiras? Ouviu a voz do Bento gritar l na frente:
        - Ih! J levei duas pancadas no coco. No sei o que ser!
        Nesse instante Lcia deu um gritinho:
        ;- Xi! Eu tambm. Levei uma coisinha na ponta do  nariz!
        Todos comearam a rir. Pararam e olharam para cima, no havia nada. Tudo era silncio na floresta. Continuaram a andar; Eduardo gritou:
        - Eh! Agora  comigo. Levei uma na cabea. O que ser?
        Henrique assobiou da maneira que os micos assobiavam; um outro assobio respondeu longe, depois outro e Outro. Henrique sentiu saudades deles.         Gritou 
com animao:
        - So eles! So eles! Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco! Onde vocs esto? Venham dar um abrao! Sou Henrin que!   Como vai Simo?   E Boni?   E Lucas?
        Todos ficaram parados, esperando. Vera estava at comovida esperando conhecer os amigos de Henrique; Lcia teve um pouquinho de medo e chegou-se para perto 
do padrinho. Henrique continuava a chamar; ouviram movimento nas folhas das rvores; todos esperavam ver a turma de micos aparecer de repente, mas nada apareceu. 
Apenas o barulho do vento entre a folhagem.         Henrique tornou a chamar com delicadeza. Nada. Eduardo aconselhou:
        - Henrique, fique sozinho atrs de todos e voc vai ver como eles aparecem s para voc.
        Henrique parou no meio do caminho enquanto os outros continuaram; mas percebeu que o irmo, os primos e Bento voltaram disfaradamente e esconderam-se por 
trs dos troncos das rvores. Henrique tornou a chamar e a assobiar; nenhum mico apareceu. Ele sabia que os amiguinhos no apareceriam enquanto os outros estivessem 
ali esperando.
        Resolveram continuar a marcha. Mais adiante Bento gritou esfregando a cabea:
        - Oh! Bichinhos danados. Jogaram com toda a fora outra bolota no meu coco!
        Novas risadas. Vera e Lcia tambm levaram bolotadas na cabea; olharam para cima e no viram nada. Os cachorrinhos latiam sem saber o que estava acontecendo. 
Quando deixaram a mata e chegaram  margem do rio, viram que o tempo havia se transformado completamente Havia nuvens negras que ameaavam chuva. Padrinho disse:
        - Vamos nos preparar que a chuva vem mesmo. E  das boas!
        Bento e Tomsio prepararam rapidamente o jantar. Enquanto jantavam o vento tornou-se to forte que parecia querer levar as barracas; tiveram que amarr-las 
de novo com cordas dobradas. Troves fortes reboaram no cu e tudo escureceu.   Correram para dentro das barracas onde acabaram o jantar; e as primeiras gotas de 
gua comearam a cair l fora. A chuva caiu torrencialmente durante quase toda a noite e ningum pde dormir muito bem.
        Vera queixou-se de uma goteira na cabea; Lcia ficou impressionada com a enxurrada que atravessava o cho da barraca. Quico espiou para fora e ao claro 
de um relmpago, disse que viu "as rvores curvarem-se quase at o cho por causa do vento".
        Henrique passou a noite pensando em voltar um dia sozinho  ilha, pois assim com tanta gente, no veria seus amigos; nem Simo, nem os bichos. Mas como voltar 
sozinho? Daria um jeito; tinha saudades dos seus companheiros de caverna, mesmo dos que no falavam. Eram bons amigos, leais e sinceros.
        O dia seguinte amanheceu quente e bonito, mas nova chuva ameaava cair  tarde; padrinho resolveu voltar para a fazenda. As crianas protestaram; queriam 
ficar mais um dia ou dois; queriam brincar com Boni, ver Simo, brincar com Um-Dois-Trs-Quatro-Cinco. Padrinho prometeu voltar em outra ocasio, deu ordem para 
desmanchar o acampamento, no que todos auxiliaram.
        Dobraram camas de campanha, guardaram vasilhas nos sacos, empacotaram o pano das barracas e colocaram tudo nos barcos. Antes de deixar a ilha, deram ainda 
um pequeno passeio pelos arredores; a mata estava muito molhada devido  chuva e escorregavam a todo o momento. Quico levou um tombo e bateu o nariz num galho de 
rvore. Vera e Lcia ficaram com lama at nas blusas. Padrinho disse:
        - Voltaremos outra vez sem ser tempo de chuva. Vejam como esto bonitos, enlameados desse jeito!
        Colheram algumas flores para a madrinha; Henrique dizia consigo mesmo:    "Um dia voltarei sozinho".
        Entraram nos barcos de volta  fazenda; quando as canoas contornaram a parte sul da ilha, pareceu a Henrique ver um brao se agitando na direo dos barcos, 
numa das rvores mais altas da ilha. Quico e Oscar disseram quase ao mesmo tempo:
        - Se Simo vivesse mesmo na ilha, ele viria ver-nos. Decerto ele j foi embora.





        Henrique ficou olhando para aquele ponto onde parecera ver um brao se agitando durante algum tempo, enquanto coava a cabea de Pipoca; depois levantou 
tambm o brao num gesto de adeus e gritou bem alto, apesar de saber que Simo no poderia ouvir:
        
- At um dia, Simo!





FIM
